segunda-feira, 19 de julho de 2010

Carência Afetiva: Fruto de uma Infância Sofrida? - Flávio Gikovate

Ouve-se com freqüência a frase: ‘Tive uma infância sofrida, por isso fiquei com uma carência afetiva muito grande’. Esse tipo de depoimento provoca imediatamente simpatia e compaixão. Surge uma vontade de proteger a pessoa que teve um passado doloroso. É evidente que muitos falam frases parecidas justamente para provocar esse tipo de reação, por esperar uma espécie de pagamento por danos sofridos na infância.
Para sabermos se esse tipo de expectativa é justo e saudável, precisamos compreender as relações existentes entre nossas vivências infantis e o que somos depois de adultos. Há uma tendência nas pessoas em geral – e também em muitos psicólogos – de estabelecer uma correlação entre episódios do passado e traços da personalidade de um adulto. ‘Fulano ficou assim porque passou por tais situações na infância’ e outras frases do tipo são comuns.
Estudos longitudinais – acompanhamento das mesmas pessoas por várias décadas – conduzidos nos Estados Unidos têm mostrado resultados muito importantes. Por exemplo: por duas décadas foram acompanhados filhos de mães esquizofrênicas, para saber quantos deles cresceriam com distúrbios psíquicos graves.
É difícil imaginar situação infantil pior, pois tais mães são totalmente incapazes de manifestações afetivas. Mas o resultado foi surpreendente: cerca de 15% das crianças cresceram mais equilibradas e maduras do que a média das pessoas – foram, por isso mesmo, chamadas de super kids. Muitas evoluíram dentro da média e apenas algumas manifestaram doenças mentais mais graves.
Tais estudos demonstram que há precipitação no estabelecimento das correlações entre fatos da infância e condições emocionais adultas. A coisa não é automática. Não vale raciocinar assim: ‘Passou por isso, ficou traumatizada e depois manifestou aquilo’. Para muitas pessoas as adversidades e dificuldades maiores são justamente o que as fazem crescer fortes e determinadas. Outras crescem derrotadas porque não foram capazes de ultrapassar os obstáculos.
Umas são derrubadas por obstáculos enormes, enquanto outras caem por qualquer tipo de problema banal. Tudo depende da força interior de cada indivíduo e dos estímulos que ele recebe de parentes e outras pessoas próximas. Vivências infantis equivalentes influem de modo muito variado sobre como virão a ser os adultos que passaram por elas. De todo modo, considerar-se muito prejudicado ou traumatizado pelo que se teve de enfrentar será sempre um sinal de fragilidade, não de força.
Há anos tenho problemas com a expressão carência afetiva. Ela sugere que algumas pessoas têm maior necessidade de aconchego do que outras. Que as mais carentes têm direitos especiais, adquiridos em função de uma história de vida particularmente infeliz. Não é isso que percebo. Aqueles que se colocam como carentes tiveram vivências pessoais similares às da maioria das pessoas. Além do mais, não é necessário ser particularmente carente para gostar, e muito, de ser tratado com amor, carinho e atenção.
Para mim, o que acaba parecendo é que as pessoas mais egoístas – indiscutivelmente as mais fracas, apesar de serem agressivas e parecerem ter ‘gênio forte’ – usam esse tipo de argumento para obter maior atenção e carinho do que estão dispostas a dar. O prejuízo do passado terá de ser recuperado nos relacionamentos afetivos atuais, de forma que receber mais do que dar estaria justificado por essa suposta carência. É um argumento bastante maroto, mas capaz de sensibilizar os bons corações que, com facilidade, se enchem de compaixão e de culpa.
A expressão ‘estou carente’ corresponde também a um pedido indireto de atenção e afeto, coisa com a qual também não concordo. Não creio que se deva pedir amor. Ou uma pessoa está encantada comigo, e estará disposta a ser amorosa e dedicada de forma espontânea, ou eu devo fazer uma séria autocrítica. Em vez de pedir amor e atenção, talvez eu devesse me ocupar em dar-lhe tudo o que pudesse lhe agradar. A retribuição virá espontaneamente. Se não vier, isso significa que a relação afetiva se partiu e não há nada mais que eu possa fazer.

Flávio Gikovate



3 comentários:

  1. Desculpa, adoro seu blog, mas vou ter que discordar absolutamente deste texto. Uma infância sofrida, a base de rejeição e com total falta de amor gera um vazio emocional muito grande sim. Luto contra isto a muitos anos, já superei muitos obstáculos que para muitos seriam intransponíveis, sou adepta da frase "não importa o que fizeram com você, o importante é o que você fez com o que fizeram com você". Mas não posso negar a dificuldade que esta situaçaõ gera para sentirmos amados e aceitos por todos, pois esta é uma batalha árdua a ser vencida dentro de sí e só quem passa por esta situação na pele pode dizer o quanto é triste e difícil. É bem fácil falar desta forma generalista e por que não dizer preconceituosa sem ter vivenciado uma situação de total desamor na infância e adolescência. Tenho total consciência que nada é por acaso e que sou resultado de minhas atitudes pretéritas, mas a carência emocional gerada por uma mãe agressiva, manipuladora e com sérios problemas emocionais e uma pai totalmente ausente é um fato e que luto todos os dias da minha vida para superar. Luto para não me vitimizar, não precisar constantemente de carinho, proteção e aprovação, mas posso dizer com absoluta certeza que isto não é fácil, e chega a ser covarde dizer que isto seria uma desculpa para pessoas egoistas, fracas e agressivas. Isto é colocar todos em uma mesma panela e não ter nenhuma sensibilidade.

    Desculpa a sinceridade, independente da minha discordância, adoro muito seu blog e estou sempre aqui.
    Beijos e boa semana.

    Seminha

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    1. Olha você coloca isso para você como algo difícil de ser superado, provavelmente é uma idéia aprendida de sua família de que as coisas são difíceis de serem conseguidas ou mantidas... gera esses pensamentos condicionados de que tudo é difícil, para superar terá que rever esse seu conceito de dificuldade e substituí-lo por outro. E também tentar compreender porque ainda está presa nisso, pois talvez algum sentimento seu esteja te deixando presa nisso até hoje, como por exemplo raiva por "você não ter conseguido ter o que desejava deles". É uma suposição. rs

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    2. Adorei o texto e concordo com tudo. Ninguém reage da mesma forma e nem cresce igual mesmo sendo gêmeos, cada pessoa se torna aquilo que ela aceitou ser independente da educação que teve. E toda forma de carência significa algo que a pessoa está negando a si e buscando nos outros. O problema é que no nosso país as pessoas aprenderam que ser carente é bonito, só que não é, é algo que não torna ninguém feliz.

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