quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ciúme: Devemos Cultivar ou Evitar? - Dr. Luiz Alberto Py

O ciúme é uma emoção, instintiva e natural. Os animais também manifestam ciúme. É um sentimento comum a todos os seres humanos - quando se fala a palavra ciúme todo mundo sabe seu significado porque já sentiu. Mas não devemos nos deixar guiar pelo ciúme, pois as emoções são más conselheiras. A arte do viver consiste em ter a emoção como motor e a razão como leme, assim aquela nos motiva e esta nos orienta. Neste sentido, o ciúme pode ser o útil motor que nos leva a sermos cuidadosos com nosso objeto de amor, mas sempre lembrando que cuidado não quer dizer controle, nem domínio.

Por ser instintivo, o ciúme é verdadeiro e deve merecer nosso respeito; mas é também irracional e precisa ser examinado e aceito pela razão. Respeito não significa aceitação. O ciúme quando não temperado pela razão nos torna possessivos, o que também é uma característica natural (pois também se encontra nos outros animais); mas o desejo de um ser humano para dominar e controlar os outros e tratá-los como uma propriedade sua ofende nossa inteligência.

Basicamente, o ciúme consiste no medo de perder para outro o objeto amado. E para que tal não ocorra devemos zelar pelo nosso amor. Zelo e ciúme andam próximos - em espanhol a palavra "celoso" tanto significa zeloso quanto ciumento. Ou seja, o ciúme nos faz zelosos.

A insegurança é uma das causas do crescimento anormal do ciúme. Em geral está relacionada com a consciência de estarmos sendo pouco cuidadosos ou incompetentes quanto à nossa relação amorosa. Quem não cuida de seu amor acaba sentindo-se em falta e temendo ser castigado e a expectativa gerada por este sentimento de culpa agrava o sentimento de ciúme. Os jovens costumam ser muito ciumentos por insegurança em relação à sua capacidade para administrar o namoro.

Por vezes, o ciúme nem tem a ver com a questão sexual. Podemos ter ciúme da pessoa amada, mesmo sabendo que ela não vai ter encontros sexuais com outras pessoas, mas simplesmente porque ela fica falando no telefone quando estamos querendo conversar. Mera possessividade, uma característica instintiva do ser humano e de grande parte dos mamíferos, que temos que reconhecer que possuímos, mas à qual não devemos ficar escravizados, como não devemos ficar escravizados às outras nossas características instintivas, embora as reconhecendo e respeitando.

Há pessoas que negam sentir ciúmes, possivelmente estão enganando-se a si mesmas e não estão tendo suficiente contacto com seus sentimentos mais escondidos; ou estão se esquivando do amor.

Nascemos com o selvagem desejo de possuir os outros, principalmente àqueles que amamos e consideramos importantes para nós. Isto ocorre desde a infância, na relação com nossos próprios pais ou, na falta destes, com os adultos que desempenham o papel paterno.

As pessoas mais sadias lidam com seu ciúme tentando compreendê-lo e evitando manifestá-lo de forma irracional. Ou seja, o sentimento de ciúme pode nos ajudar a melhor compreender uma situação que estamos vivendo e por isto ele merece ser ouvido e examinado. As questões a serem respondidas são: "O que está me levando a sentir este ciúme agora?" "O que posso fazer para diminuir o desconforto que o ciúme me causa?" "Qual a maneira produtiva de conversar com meu parceiro(a) sobre meu sentimento?" "Como modificar minha relação amorosa para parar de sentir ciúme?"

As manifestações destrutivas do ciúme - desde as conhecidas "cenas de ciúme" acompanhadas de gritos e choros até a violência mais explícita das agressões - fazem parte do conjunto de impulsos naturais e selvagens que possuímos e cuja repressão é proposta como base para a vida civilizada. Desde muito cedo somos treinados a controlar nossos impulsos naturais, começando na mais precoce infância pelo controle das excreções com o uso do penico. Aliás, este talvez seja o lugar ideal para despejarmos os nossos ciúmes, pois quando deixamos os sentimentos guiarem sem restrições nosso comportamento os resultados costumam ser catastróficos.

Quando encaramos a relação amorosa como uma relação livre entre dois adultos independentes, nela não há lugar para nos sentirmos proprietários de nosso(a) parceiro(a). Por isto, temos que estar diária e permanentemente reconquistando e seduzindo o outro e zelando pelo relacionamento.

Dr. Luiz Alberto Py - http://www.albertopy.com.br/



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