sexta-feira, 16 de julho de 2010

Como Educar os Filhos? - Içami Tiba

O psiquiatra e escritor Içami Tiba é o autor brasileiro que mais vendeu livros em 2003. Seu best seller, Quem Ama Educa, está na 114a edição, com 500 mil exemplares vendidos. O sucesso dos seus livros se deve à maneira simples com que escreve, ilustrada de exemplos que servem para o dia-a-dia dos pais, muitas vezes inseguros na educação dos filhos. No seu consultório no bairro do Itaim, em São Paulo, retratos da esposa e dos filhos e um presente do neto enfeitam constantemente sua estante. É lá que ele recebe seus pacientes, a grande maioria em busca de boas orientações para a estrutura familiar e educação dos filhos. A convite da Made in Japan, Tiba deu dicas específicas para o pai nikkei, que vive um dilema, pois herdou a rigidez da tradição japonesa, mas precisa conviver com a liberdade dos filhos.

Qual o papel do pai na educação?
Muitos japoneses e seus descendentes no Brasil ainda seguem uma estrutura familiar ultrapassada. Por esse modelo, o pai deve apenas sustentar a casa.A educação dos filhos fica sob a responsabilidade da mãe. O modelo do pai centralizador e autoritário, no entanto, já não supre mais as necessidades dos dias de hoje.

Pais durões, filhos rebeldes
As novas gerações querem romper com a imagem do nikkei tímido e introspectivo. Mas o fazem de uma forma radical: adotam cabelos coloridos, piercings, tatuagens, roupas e comportamentos extravagantes. É o jeito, porque não dá para ir mudando aos poucos, tanto os pais quanto os filhos são muito duros. Nada contra a rigidez, que é um traço nikkei. Mas não estamos mais em uma geração de mandar, mas de pedir colaboração e formar uma equipe.

De quem deve ser a palavra final?
Nesse novo sistema de cooperação, não há um detentor da palavra final que decidirá que rumo a família deve tomar.No sistema antigo, a última palavra era do pai. Masno esquema moderno, é de quem tiver mais conhecimento sobre a questão (pode ser o pai, a mãe, o filho ou pessoas de fora). No sistema em equipe, aquele que descobre o caminho é que ensina os outros. Por isso, a mãe ou o pai não podem submeter sua autoridade à do outro. Quando o filho desrespeita a mãe - e ela tem razão - não precisa chamar o pai para conversar com o filho. Ela deve resolver na hora o que está acontecendo.

Proteja sem ser autoritário
Violência e drogas são ameaças constantes aos jovens, que estão cada vez mais vulneráveis e expostos. Por isso é mais fácil um adolescente com tempo livre aprontar alguma. Ele fica receptivo.A gente pode dizer que cabeça vazia é oficina do diabo mesmo.

Os dekasseguis devem levar os filhos ao Japão?
Os problemas com os adolescentes brasileiros são potencializados no Japão. Eles ainda não podem trabalhar nas fábricas e sofrem discriminação e ijime na escola. O melhor seria deixá-los estudando no Brasil. Mas se fizer só isso, o jovem fica com tempo de sobra. O melhor é trabalhar para ganhar senso de responsabilidade ou realizar outras atividades. E, de preferência, que fique sob a guarda da mãe.

Espelho, espelho meu
Não force o filho a ser a sua própria imagem. Os pais acreditam que estão sempre certos e querem impor seus pontos de vista.A dica importante é: respeitar os valores dos filhos.

Não se importe tanto com o que os outros pensam
Todos cometemos erros. Não fique com vergonha do que os filhos fazem ou vão fazer. No Japão, se um membro da família vai preso, ninguém vai visitar. Ele vira a vergonha da família. No Brasil, os familiares brigam com a polícia que maltrata o filho que está preso. São casos extremos, mas não dá para ficar dando tanta importância para o que os outros vão dizer e anulando o que a gente pensa sobre o assunto.

Não engula sapos
O nikkei deveria falar mais, se manifestar mais e não simplesmente aceitar e engolir sapos.Ainda hoje, o nikkei engole muito sapo. Na educação, se um filho reagir, deixe-o reagir. Porque o filho que reage está sendo mais saudável que o pai que engoliu sapos. Deve-se contestar. O pai chega para o filho e fala "mas você não podia ter respondido para a professora","mas ela estava errada, pai","não importa, ela é professora". O que valeu aí? Não foi quem está certo ou quem está errado, só a hierarquia.

Não exagere nos mimos
O pai nikkei tem o costume de ou não dar nada, ou dar tudo. Essa geração de nisseis é muito mole com os filhos no sentido financeiro. Os filhos deveriam ser educados para merecer o que recebem. O pai nikkei vai almoçar, come o prato mais barato para guardar dinheiro e dar o tênis mais caro para a criança. E aí, às vezes, o filho é tão abusado que nem valoriza o tênis. Os pais não deveriam se sacrificar em nome dos filhos, mas, sim, desenvolver os filhos para que eles se tornem independentes.

PERFIL
Extrovertido, desembaraçado e articulado. Içami Tiba, 63 anos, possui o perfil oposto ao estereótipo do nikkei - e é isso mesmo que ele quer transmitir. Formado em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e psiquiatra pelo Hospital das Clínicas, o nissei trilhou uma carreira de sucesso ao se dedicar à educação de crianças e adolescentes.
Quem conhece sua carreira mal consegue imaginar que Tiba queria se dedicar apenas às consultas itinerantes, à moda antiga. Foi sua esposa, Maria Natércia, quem o incentivou a transmitir seus conhecimentos de forma mais ampla."Minha mulher dizia que eu não me valorizava", lembra. O "empurrãozinho" deu tão certo quanto o casamento, que originou 3 filhos e já chega aos netos.
Mas, para isso,Tiba teve de percorrer um trajeto que, ainda hoje, ele observa muitos dos seus pacientes trilharem: o enfrentamento das regras sociais japonesas. Seu pai, um monge budista, seguia as tradições japonesas, inclusive o miai, o casamento arranjado. Foi assim com seus dois irmãos mais velhos."Saí de casa para não aceitar o miai", conta. Hoje, possui uma grande gratidão pela colônia japonesa, ressaltando que sempre é lembrado para fazer palestras e participar de eventos nikkeis.

Fonte: www.tiba.com.br



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