quarta-feira, 14 de julho de 2010

Decifrando os Pesadelos

"...Perco o fio da vida
Olho o rio sem continuidade
Estranhas cenas surgem
Partidas de outra idade
Ora criança, ora anciã,
Ambas prisioneiras
De um fio tênue do inconsciente
Que a calada da noite consente"

Os pesadelos se encontram no patamar das experiências extremamente perturbadoras pelas quais se pode passar. Muitas vezes chegamos a ser assombrados durante os dias que se seguem a um sono desse gênero, pela força das imagens que contém. Entretanto, os pesadelos não devem ser encarados como maus presságios, como possam parecer a princípio. Muito ao contrário, eles não estão contra nós, mas ao nosso favor, pois funcionam como um sistema de alerta da psique no sentido de que façamos correções em nossas vidas.

A realidade é que dentre todos os nossos sonhos, os pesadelos estão de fato dentre os mais significantes e úteis. Eles vivificam e salientam pensamentos e sentimentos importantes que tendemos a empurrar para nosso inconsciente, articulando a natureza dos conflitos que enfrentamos internamente, mesmo que esses sejam ainda inconscientes, e realçando a conexão entre desafios do presente e nossa história passada.

Eles também podem estar advertindo a tempo sobre o potencial para problemas futuros se continuarmos no mesmo curso de vida, sem retificações, nos permitindo fazer consertos em nossa trajetória e evitando dores que fatalmente viriam ao nosso encontro.

Nossa mente inconsciente capta nossas dificuldades. A parte de nossa psique que formula os enredos de nossos sonhos parece ter várias funções, mas a mais importante delas parece ser a de pesquisar onde falhamos e onde ainda poderemos falhar, colocando em risco nossa integridade. Por isso nossos sonhos muitas vezes focalizam onde somos ameaçados, assim como onde é ameaçada nossa família, nossa autonomia e felicidade.

Posso bem me recordar de um pesadelo que uma pessoa amiga teve em que sua filha mais nova caía num precipício. Ela chegava a ver as mãozinhas da filha escorregando pela terra do barranco e tentando se agarrar em arbustos e raízes, para novamente escorregar e voltar a cair e se agarrar em outras raízes. Ela acordou sem que visse a filha chegar ao fundo do barranco, a menina ainda se agarrava ao que encontrava. Muito aflita me contou seu sonho e concluímos as duas que a filha corria alguns riscos. Não tivemos muito tempo para discutir o assunto e tentar descobrir qual tipo de risco a menina corria, pois ela viajaria algumas horas mais tarde. Passados dois meses ela me telefonou e me contou o que aconteceu com sua filha. A menina estava brincando na piscina do prédio onde moravam e veio até ela nervosa dizendo que "o tio", um vizinho de minha amiga, estava na piscina, e a cada vez que ela tentava sair da piscina ele lhe puxava para dentro da água, colocando as mãos em suas partes íntimas. Após várias tentativas de escapar a menina conseguiu sair correndo e contar o problema a mãe.

No mesmo instante me recordei de seu pesadelo, e pudemos perceber com perfeição de que maneira seu inconsciente tentava lhe alertar para os riscos que a menina corria.

Um outro caso, agora de uma cliente, e dessa vez como um alerta sobre sua própria vida, e de como ainda poderia se machucar, é o de um pesadelo que se repetiu por várias noites. Minha cliente que havia começado um namoro com alguém que lhe parecia muitíssimo interessante, me contava que sonhava estar numa festa com ele, e que de uma hora para outra surgia a mulher do namorado. Ela dizia não conseguir entender o porque disso pois ele era livre. O pesadelo se repetia e os detalhes a cada dia me faziam ver que algo estava errado nessa história em que ela insistia em acreditar. O mais curioso é que no segundo dos sonhos, ela estava comigo em um bar quando ele chegava acompanhado da mulher dele.

Nós jamais havíamos saído juntas.

Alguns meses mais tarde, fui ao cinema com uma amiga e me sentei no coffee-shop para tomarmos um café enquanto o filme não começava. Na mesa ao lado estava sentada minha cliente que acabou juntando-se a nós. Instantes depois entra seu namorado abraçado à uma mulher que mais tarde ela acabou apurando que era a sua esposa, embora ambos vivessem em casas separadas, cada qual com seus filhos.

Mais tarde, ao fazer um levantamento das circunstâncias que cercavam aquela relação, ela pode se dar conta de que haviam sinais do comprometimento do namorado com outra mulher, mas ela literalmente não queria ver, e empurrava esses indícios para o inconsciente. Os pesadelos começaram a povoar seu mundo onírico na tentativa de fazer com que ela visse, mesmo que numa "outra dimensão", o quanto corria risco de se machucar mais adiante.

Esses casos são inúmeros e refletem a cooperação da mente inconsciente no sentido de que possamos conduzir nossas vidas em segurança e buscando nossa felicidade. São alertas sim, mas não fatos trágicos, fechados e imutáveis. A tragédia será sempre creditada a nossa inconsciência e ao nosso medo de crescer. Se tivermos a coragem de encarar nossos pesadelos, escutar o que eles têm a nos dizer, decifrar seus sinais, estaremos pisando em terra firme, já a salvo do terremoto que o tempo ruim prenunciava.

Por Claudia Araújo



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