terça-feira, 20 de julho de 2010

Tem certeza de que sabe ler? - Rosana Braga

Toda vez que a gente fala de encontros entre pessoas, independentemente do grau ou do rótulo que se dê a eles, inevitavelmente temos de ressaltar a importância do diálogo. Acontece que nem sempre nos lembramos do verdadeiro significado desta palavra!

Dialogar significa que um fala e o outro ouve e depois um ouve e o outro fala. Definitivamente, não é diálogo quando um só fala e o outro só ouve. Mas, pior do que isso, é quando os dois falam e nenhum dos dois ouve.

Entretanto, infelizmente é o que mais acontece nas relações. Os dois falam, mas nenhum dos dois ouve! Os dois estão abarrotados de suas próprias verdades, atolados de suas próprias convicções e, portanto, indisponíveis para se interessar pelas verdades e pelas convicções do outro.

Argumentam: “eu já sei o que você vai dizer!” ou “eu sei muito bem o que você quis dizer com aquilo”... e pronto – está destruída a chance de qualquer entendimento. Assim, as mais terríveis acusações são feitas, as maiores ofensas são alimentadas e uma lamentável disputa de egos fica a serviço de destruir, subjugar e machucar um ao outro.

Antes de começar uma conversa, especialmente aquelas mais difíceis, para as quais já vamos palpitantes e tensos, deveríamos passar por uma espécie de ‘câmera esvaziadora de crenças, conceitos e, sobretudo, preconceitos’. Somente desta maneira chegaríamos diante do outro com espaço suficiente para deixá-lo ‘entrar’. Ou seja, para de fato ouvirmos o que ele tem a nos dizer.

E aí sim a dinâmica seria harmoniosa: um fala e o outro ouve; um ouve e o outro fala. Alternadamente, atenta e respeitosamente, o objetivo seria cumprido, ainda que muitas outras conversas precisassem acontecer até que se esgotassem todas as dúvidas e mágoas.

Isso sim é desejar o consenso, é querer realmente um entendimento; é saber o verdadeiro significado da chance soberana que nos é dada de nos relacionarmos com as pessoas, seja lá sob qual pretexto for.

O que importa de fato não é o tema discutido nem tampouco a sua opinião. O intuito de se aprender a ler o coração do outro (isto é, ouvir o que ele tem a dizer) vai além de qualquer assunto ou veredicto: apresenta-se como o único caminho que nos conduz à oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores.

Por isso, antes de tentarmos impor a nossa verdade ao outro, que tal, por um dia que seja, ficarmos realmente atentos ao que ele tem a nos dizer... realmente ler o seu coração, respeitar os seus sentimentos?

Assim, quem sabe – por mais destoantes que eles sejam dos nossos – talvez possamos amorosa e humanamente acolhê-los, reconhecendo que somos todos aprendizes, moradores de uma mesma dimensão, sob as dores e as delícias de um mesmo Universo...

Por fim, é na capacidade de ponderar, refletir e aceitar o fato de que uma verdade é apenas um ponto de vista que está o real exercício de amor, tão escasso em nossas vidas ultimamente!

Rosana Braga
Escritora e Consultora em Relacionamentos. Palestrante na área de Desenvolvimento Profissional e Relacionamentos Interpessoais.
www.rosanabraga.com.br



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