quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A quem Interessa o Orgasmo Fingido? - Ruy Fernando Barboza

Se você não tem orgasmo, pode fingir, que ele não vai perceber. Vi esse conselho em chamada de capa de revista feminina brasileira. O mais interessante: a revista se destina, precisamente, à mulher liberada, assertiva, a mulher que toma a iniciativa. Se você está com a impressão de que eu estou criticando a revista, é importante que eu diga: não estou, não. A revista, na verdade, apenas reflete o que quer ouvir, no caso, boa parte das suas leitoras.
Está tão entranhada em mentes femininas a idéia - no fundo, machista, pois só interessa ao homem - de que "é preciso conquistar" o homem, que muitas vezes, na tentativa de ajudar a mulher nessa conquista, suas conselheiras esquecem de qual é a finalidade da conquista. Afinal de contas, para que uma mulher quer um homem? É para que ela se realize, como mulher, na companhia dele? É para que, realizando-se, e realizando-se a relação, ambos se realizem? Ou é para que o homem se realize e, assim, não a abandone? Não é pequeno o número de mulheres que fingem o orgasmo, como tática de conquista do homem. Algumas, casadas há vários anos, nunca revelaram ao marido que não têm prazer no sexo - sempre com o objetivo de preservar a relação. E esse são tão aceitas que, certamente, você deve lembrar-se do antológico diálogo entre Meg Ryan e Billy Cristal, em "Harry and Sally": em meio a uma discussão com ele, num bar, ela mostra como um orgasmo pode ser fingido - desmoralizando a falsa idéia, dele, de que nessas coisas é impossível enganar um homem...Harry perdeu a discussão, desmoralizou-se, ficou irritado - porque a mulher provou que o homem é um boboca: ele nem percebe que a mulher está fingindo o orgasmo, ou seja, que ele, homem, está sendo usado...ué, mas, espera um pouco, quem é que está ficando com o prazer? Não é o homem, justamente, o que está sendo enganado, inocentemente feliz, sem saber que ela não tem prazer no sexo ?...

A pergunta que fica, portanto, é: no duro, no duro, quem está enganando quem? No caso, se a mulher aprofundar a questão, verá que está sendo levada a enganar a si mesma. E a raiz da questão está em alguns pressupostos que a cultura foi estabelecendo para a relação amorosa, e aos poucos foram se transformando em verdades absolutas e indiscutíveis - que vitimam, igualmente, homens e mulheres. Um dos mais graves, para mim, é o que coloca a mentira como base para o início de qualquer relacionamento - o que vale para qualquer relacionamento, mas sobretudo o amoroso. Para que eu me aproxime de alguém, preciso ter jogo de cintura, preciso saber dizer o que o outro quer ouvir, preciso engolir meus desejos e necessidades, passar a imagem de que sou a pessoa ideal para o outro.

Quem inicia assim uma relação, cria bases falsas para ela, e, no futuro, para preservá-la, terá de continuar mantendo essas bases, e sustentará, assim, para sempre, uma relação que jamais será realmente enriquecedora. E, nos momentos de desencanto e desilusão, sempre encontrará, na mídia, sobretudo a feminina, artigos com novas soluções: como lidar com um homem ciumento, ou possessivo, ou carente, ou tímido, ou sado-masoquista. Temo que, radicalizando-se a competição, reduzindo-se o mercado e ampliando-se a necessidade de prestar mais serviços à leitora, venhamos a ter artigos com títulos mais ou menos assim: "Como conviver com um traficante", "O que fazer quando ele é sequestrador", e "Comidinhas para depois do assalto".

Nem de leve, quero negar que uma relação será muito pouco promissora se começar na base do confronto e da briga, estando um de pé atrás com o outro. Não, não é isso. É natural, e saudável, e verdadeiro, querer que o outro esteja feliz conosco e trocar concessões para preservar a relação. Mas devemos valorizar aquilo que nosso corpo nos diz para perceber quando está havendo uma submissão, ao invés de uma troca. Ir hoje assistir a um Palmeiras e Corinthians, mesmo não entendendo de futebol, para estar com ele, pode ser muito bom, se amanhã ele for com ela à festa da turma dela da Faculdade de Ciências Contábeis. Mas não sei que troca poderia compensar um orgasmo fingido, quando ela renuncia ao que há de mais gratificante em termos de prazer - e que só pode encontrar paralelo naquele tipo de "acordo" em que um entra com o pontapé e o outro com o traseiro...

Artigo escrito por Ruy Fernando Barboza (RFBARBOZ@trf3.gov.br), psicólogo clínico em São Paulo, conselheiro da SOBAB - Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética e membro CBT (Certified Bioenergetic Therapist) do IIBA - International Institute for Bioenergetic Analysis, de Nova York



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