quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Solidão - Andrea Pavlovitsch

Estou hoje num local diferente. Um spa no meio das montanhas.Vim pra cá pra me afastar do barulho da cidade, dos problemas de casa, do trabalho e tudo mais. Precisava de tempo para pensar. Tempo para me reconectar comigo mesma. Acredito que isso seja importante, seja lá para onde você for, e até mesmo se continuar no sofá da sua sala. Mas quando estamos distantes fisicamente as impressões parecem mais claras.

Hoje à noite a minha companheira de quarto foi dormir com o marido e a filha que a estão visitando. É sábado à noite e me vejo completamente sozinha no quarto e cansada das atividades noturnas do spa como videokê e bingo. Resolvi ficar aqui com a minha solidão.

E a primeira coisa que pensei em fazer assim que a moça saiu pela porta foi comer. Não é incrível? Mas aqui não é possível Fiz meu delicioso jantar às 19 horas e só tenho 2 biscoitos de água pra comer até o final da noite. Por isso eu guardo, então não dá pra usar isso de desculpa. Comecei então a pensar porque já pensei logo em comer e me veio a resposta de primeira: solidão.

Solidão é algo tão comentado como o amor. Se num jogo você pedir canções com a palavra solidão, vai demorar até alguém não se lembrar de mais nenhuma. Solidão é uma coisa da qual o ser humano faz questão de fugir, ainda mais nos dias de hoje.

A televisão, a internet, as revistas, os jornais, parece que tudo é uma desculpa para não encarar, para não se sentar com ela na sala de estar e perguntar porque será que ela te incomoda tanto. Aí, o que resolvi fazer, olhar pra dentro de mim e parar de querer comer ou assistir filmes porcaria para não conversar com ela. A solidão é assim, quanto mais você ignora, mais ela se faz presente.

E fizemos isso, eu e ela. Ela se sentou no canto da cama e eu na cabeceira. A minha primeira pergunta foi: por que você está aí, o que quer de mim? A resposta dela foi impressionante.

- Primeiro preciso te dizer, e estou tentando te dizer isso há muitos anos, que não sou esse monstro horroroso que você pensa que eu sou.

Retruquei: Como não? Você fica o tempo todo atrás de mim, tentando ver se não tenho uma brecha para você entrar. Afinal de contas o que quer que eu faça?

A primeira coisa que ela quis me dizer é que ela existe e que ela aparece, porque eu dou espaço. - Você me deixa entrar - me disse arrogante.

Eu falei que me distraio com tanta coisa, como assim a deixo entrar? E ela novamente me respondeu que não posso preencher meus espaços vazios com nada que seja de fora de mim. Que qualquer coisa que eu use pra substituir me fará mal.

De fato os quilos de pipoca e de salgadinhos que eu já comi pra fingir que ela não existia não são brincadeira e bem não me fizeram.

- Você não percebe - ela continuou - que a última coisa que eu quero é ficar aqui com você? Você não percebe que eu sou uma companhia e não uma falta? Não percebe que eu sou você, a sua alegria de viver, a sua aceitação de que nascemos e vivemos dentro de nós mesmos? Você aceita que vive dentro de você mesma? Aceita que nasceu, que encarnou e que agora precisa se aceitar aí dentro?

Eu fiquei em silêncio. Não sabia o que responder. Como assim eu não aceitava? Descobri que tenho medo dela, um medo terrível. Sempre pensei que tinha medo de ficar só e passar mal e não ter ninguém pra me acudir (e já ouvi isso de várias pessoas), mas a verdade é que tenho medo é dela entrar. Dela se mostrar, dela mostrar meu lado mais frágil, meu lado infantil que tem medo do escuro.

Ela disse que poderia ir embora se eu prometesse estar comigo. Se eu prometesse me amar e me respeitar, se eu prometesse puxar a minha força e o meu poder lá do fundo de mim mesma. Se eu perdesse o medo de sumir, de desaparecer. Não existe solidão na alma, só no ego. A alma sabe que é solitária, mas que tem milhões de companhias na eternidade. A alma não se apega por conta disso, porque ela sabe que estará com ela mesma pelo resto da vida. O ego teme sumir quando está só. Teme não existir mais se alguém não estiver olhando pra ele, admirando, conversando, ouvindo. Mas eu sei que posso fazer isso comigo mesma, posso ser a minha grande companheira.

Para se livrar da solidão é preciso, primeiro, se livrar do apego. Largar o passado, o velho, as coisas que foram boas ou ruins. Se livrar de experiencias que não fazem mais parte de você. Sentir-se novo todos os dias, como alguém que acabou de nascer e que tem um dia todinho só pra si mesmo. Sem memória, sem estados, sem traumas, sem neuroses do passado. Não existe o passado! Eu sou esta aqui, escrevendo estas coisas aqui hoje, num spa, com fome e nada de sono. Com uma TV a cabo e um sinal de internet que é desligado às 23:00! Esta sou eu. Nem mais, nem menos. E estou feliz com isso porque sei que estou do meu lado seja lá o que diabos for acontecer. Estarei comigo e isso não me faz sozinha. Vejo a sombra da solidão saindo pela porta do quarto. Ela se foi, meu medo passou. Estou livre de novo.

Andrea Pavlovitsch - andreapavlovitsch@uol.com.br



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