quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Amor Maduro - Artur da Távola

O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas quase silencioso.
Não é menor em extensão.
É mais definido, colorido e poetizado.

Não carece de demonstrações;
presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas;
amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro somente aceita viver os problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão.
Basta-se com o todo do pouco.
Não precisa nem quer nada do muito.

Está relacionado com a vida e sua incompletude, por isso
é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.

O amor maduro não disputa, não cobra, pouco pergunta, menos quer saber.
Teme, sim. Porém, não faz do temor, argumento.
Basta-se com a própria existência.
Alimenta-se do instante presente valorizado e importante
porque redentor de todos os equívocos do passado.

O amor maduro é a regeneração de cada erro.
Ele é filho da capacidade de crer e continuar.
É o sentimento que se manteve mais forte depois das ameaças.

Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com gosto da boca e do cheiro, está a compreensão antecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto, os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver, o equilíbrio de carne e de espírito.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois.
Vive do que fermentou, criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.

Ele não pede, tem. Não reivindica, consegue. Não persegue, recebe. Não exige, dá.
Não pergunta, adivinha. Existe para fazer feliz.
Só teme o que cansa, machuca ou desgasta.

É o sol de outono.
Nítido mas doce; luminoso sem ofuscar;
suave mas definido; discreto mas certo.
Um sol que aquece até queimar...

Artur da Távola



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