quinta-feira, 17 de março de 2011

A Diferença Entre Cobrar e Receber Amor - Bel Cesar

Todos nós conhecemos a necessidade de amar e ser amado. No entanto, quando esta necessidade se torna carência, há algo extra a ser alertado: estamos vulneráveis e desequilibrados.

A origem da carência afetiva encontra-se em nossa dificuldade para receber amor. É como estar com fome e não ter estômago para digerir. Mas, como será que nosso estômago afetivo tornou-se tão pequeno? Fomos nos alimentando cada vez menos, à medida em que o alimento emocional tornou-se escasso ou invasivo.

Em outras palavras, fomos instintivamente diminuindo nosso estado de receptividade ao associar a experiência de receber amor a vivências de insuficiência, abandono ou de um controle excessivo. Se nos sentimos manipulados ao receber alimentos, presentes, elogios, carícias e incentivos, associamos a idéia de receber com o dever de retribuir algo além de nossa capacidade ou vontade pessoal. Quem não se lembra de ter escutado advertências como: Agora você já deve se comportar como um menino grande ou Se você comer todo jantar, pode comer a sobremesa....

Estas frases parecem inocentes, mas revelam os condicionamentos pelos quais passamos a aprender que receber modula nosso modo de ser.

Filhos de pais intrometidos e controladores desde cedo aprendem a conter seus desejos, pois sabem que ao revelarem suas intenções acabarão tendo que abandonar seus planos para realizar as vontades de seus pais. Para garantir fidelidade frente aos seus desejos e gostos, diferentes de seus pais e orientadores, acabam se contraindo cada vez mais - por um instinto de autopreservação, necessário no processo de autoconhecimento e autoconfiança, distanciam-se de seus pais para conhecer a si mesmos.

Desta forma, com a intenção de nos proteger do excesso ou da falta de atenção diante de nossas necessidades de amarmos e sermos amados, fomos nos fechando, isto é, formando camadas protetoras contra os ataques diante à nossa vulnerabilidade. Este processo sutil e delicado tem um efeito bastante grave: ao estar mais atento no que estou recebendo do que no que desejo, acabo aprendendo a dar mais atenção ao mundo exterior que às minhas reais necessidades.

A necessidade de ser amado faz parte de nosso instinto de sobrevivência, portanto é algo natural, enquanto seres que vivem em sociedade. Mas em nossa sociedade materialista onde autonomia é sinônimo de maturidade, muitas vezes esta necessidade é vista como um sinal de imaturidade ou infantilidade. Vamos esclarecer este preconceito: amar só se torna infantil quando se torna uma exigência unilateral: quando queremos apenas ser amados.

Estranhamente, quando quero algo do outro, deixo de perceber a mim mesmo. Quando preciso do outro, passo a controlá-lo. Então, ao invés de expressar o meu amor, passo a cobrar por atenção. No lugar de dizer que amo, digo o que falta no outro para me sentir amada.

Quantas discussões entre casais, pais e filhos estão baseadas nesta troca de intenções!

Vamos exemplificar melhor este drama. Quando o parceiro se distancia, por razões alheias à sua parceira, ela se sente abandonada. Então, no lugar de dizer: Quero estar mais próxima de você, ela diz: Você está distante!. Este seu modo de alertar o outro de sua carência é defensivo. Ela não está sendo aberta, nem transparente, pois detrás de sua reclamação há um desejo de controlá-lo, para que ele seja do modo como ela quer. Ele, sentindo-se pressionado, perde a espontaneidade e afasta-se cada vez mais. Ela sentindo-se carente, se torna refém da atenção dele!

Quando nos tornamos refém do comportamento alheio, deixamos de estar conectados ao nosso sentimento de amar e esperamos apenas ser amados. Em outras palavras, deixo de perceber o que estou sentindo em relação a ele e apenas me atenho ao que ele está demonstrando sentir em relação a mim. A expressão do afeto se contrai sob a pressão e gradualmente ambos perdem a espontaneidade.

Há uma diferença entre expressar claramente o que se quer e cobrar indiretamente o que se necessita. No momento em que simplesmente expresso meu desejo, desobrigo o outro de atuar. Assim, ele já não se sente mais pressionado a mudar e torna-se naturalmente disposto a retomar a relação.

Ao perceber nossas verdadeiras necessidades, desejos e intenções, liberamos o outro da carga de adivinhar o que secreta e indiretamente desejamos. Deixamos de imaginar o que precisamos e passamos a sentir nossas reais necessidades.

Este processo exige auto-observação. Muitas vezes, dar-se conta de algo que nos falta dói mais do que imaginávamos. Perceber nosso bloqueio em saber receber pode ser uma surpresa maior do que pensávamos. Mas, a cada momento que percebo uma limitação interior tenho a chance de mudar. Como?

Começando por admitir que receber é bom. Não é uma ameaça. Só a experiência pode nos afirmar o que queremos ou não. Precisamos aprender a sermos sinceros com nossas necessidades frente aos desejos alheios. Isso ocorre quando nosso sim é um sim verdadeiro.

Não precisamos deixar de ser quem somos ao receber algo intencional de outra pessoa. Não precisamos usar máscaras sociais comportando-nos como é esperado de nós. Nem nos sentirmos insuficientes e inadequados se não estivermos em condições de retribuir. Podemos ser autênticos!

Nos sentimos amados quando o outro nos aceita tal como somos. Portanto, dar amor é abrir-se para receber o amor que o outro tem para lhe dar. Dar um espaço de si para acolher o outro em seu interior.

Bel Cesar é psicóloga e pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano.
Email: belcesar@ajato.com.br



7 comentários:

  1. Exelente esta matéria eu to passando por uma situação semelhante espero resolve-la o mais rápido tenho que parar de ceder tanto hj passei por uma cobrança da pessoas qu tanto ajudei e vejo nela que como em algumas mulheres que o sexo e Amor eu sempre fui muito positivo nesta questão mais ela só pensa nos caprichos e me cobra eu sempre investir para que esta pessoas cresça na vida de forma profissional ja realizamps tantas coisas lindas juntos promovo os melhores prazeres, mais quero que ela enchergue que tem que se promover mudanças e estas coias do prazer aconteceçam de forma natural mulhesres são taõ dificeis de entender mesmo assim eu gosto muita da fruta femenina mais tenho que gostar muito conhecer primeiro por mais que se mostres divina .Riva

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  2. Este texto me fez ver que sou assim... estou lutando pra mudar isso em mim,e vou conseguir.

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  3. Depois de ler este texto foi como se eu estivesse vendo uma copia minha,quero dizer que é como se eu estivesse me vendo de fora.
    Identifiquei-me demais, e estou profundamente envergonhada, mas me sinto melhor agora, acho que estou um pouco melhor orientada, tenho me sentido desorientada ultimamente, e isto só faz piorar meu comportamento, estou ha um gesto, palavra, de perder a pessoa que amo.
    No meu caso meus problemas são ainda maiores vem da minha infância.
    Sinto uma rejeição tão grande o tempo todo, por todos, tive muitos problemas com uma família desestruturada
    vou refletir muito apartir deste momento, e eu vou conseguir tornar-me uma pessoa melhor.
    tenho pouca idade nao tenho sabedoria então sera bastante dificil. caso nao consiga me tornar uma pessoa melhor atempo de salvar meu namoro, com certesa para o proximo eu estarei.

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  4. Olha pessoal,muito boa essa matéria...Parabéns!!
    Estou em uma guerra no meu casamento exatamente por esse motivo.Depois de ter lido acho que posso mudar meu jeito de ser e procura ser feliz sem cobrar nada.Apenas receber o amor da maneira que ele sabe dar.
    Um grande abraço!!!

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  5. Esse texto me ajudou a ver que eu preciso aprender a gostar mais de mim,e que eu não sou
    insubstuivel,as vezes é preciso dizer não.
    Um abraço,Neusa

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  6. Muito bom, espero que eu possa usar isso de verdade, com fé em Deus, sinceridade, respeito pelo o outro, mas quando não existe mais amor parta pra outra.

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  7. MUITO INTERESSANTE PARABÉNS PELAS PALAVRAS ESCRITAS.

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