segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cuidado Com o Amor - Danuza Leão

Quem ama não mata, mas costuma fazer desaparecer a pessoa que conheceu e por quem se apaixonou... Cuidado com o amor.

O amor é maravilhoso, não é? É, responde a humanidade em coro. Mas por que será que as pessoas mudam de personalidade quando apaixonadas?

Um homem ao lado da mulher que ama é outra pessoa, alguém que nem a própria mãe seria capaz de reconhecer. Ele é capaz de dizer que não acha a menor graça em Angelina Jolie, que quem ama é sempre fiel e que para ele só existem duas coisas que realmente importam: ela -em primeiro lugar- e o time pelo qual torce.

Se você encontrar esse mesmo homem com dois amigos num bar, vai descobrir que se trata de outra pessoa, só pelo som das gargalhadas -que, aliás, serão muitas. Mas quando você chegar, fique certa de que o assunto vai mudar e o assunto vai ficar mais sério.

Quem ama se transforma em uma pessoa diferente, com outros gostos e outras opiniões, pelo menos quando estão juntos. E aquela mulher que quando ouvia os primeiros compassos de uma música animada começava a mexer o corpo e a cantarolar a letra, hoje em dia, quando ouve o primeiro acorde fica surda, perde a memória e nem pensa nas lembranças que a música traz. E ele, que se apaixonou exatamente porque ela mexia não só o corpo mas também o gelo do copo de uísque com o dedo, agora diz "vê se maneira na bebida"; e quando olha para aquela mulher austera, não entende por que a vida já foi tão melhor.

Você já foi à praia com seu namorado, claro. Quando o romance começou, ele brincava e atiçava seus ciúmes com elogios às gostosas que passavam; e você ria, no máximo lhe dava um beliscão leve e amoroso, tão segura estava do seu amor. Agora, se encontrar uma revista de mulher pelada no carro, é capaz de ficar de tromba por uma semana. Você conseguiu transformá-lo num marido, e se transformou numa esposa, e por nada no mundo faria um "strip" para ele, como já fez; certas coisas não são para serem feitas de aliança no dedo.

Tente ir a um restaurante com um casal apaixonado: é praticamente impossível, pois o mundo deles é outro, e nele não há lugar para pessoas normais. Os assuntos são completamente diferentes dos que quando estão sozinhos, e sobretudo as opiniões. Casais costumam votar no mesmo candidato, e poucas mulheres seriam capazes de declarar que vão votar em Gabeira, se o voto dos maridos vai para Crivella. Raras, eu diria.

Vá com seu marido a um show em que as mulheres aparecem com os seios de fora. Nervoso ele vai ficar -todos ficam-, mas depois do primeiro momento (e do seu primeiro olhar para ele), lembrará que você virou "a patroa" e vai ficar com cara de quem está olhando uma paisagem.

Mas faça uma experiência e proponha irem a uma praia de nudistas: um homem das cavernas vai surgir de dentro daquele que te encantava quando passava a mão nas suas pernas no carro, no meio do trânsito. Mas quando ela vai almoçar com duas amigas, na segunda caipirinha volta a ser a mulher divertida que era antes, e que não é mais; não quando está com ele.

Onde foi parar esse homem? Onde foi parar aquela mulher que vivia feliz e risonha, que não queria nada da vida a não ser ficar com ele, agarrada, apaixonada?

Quem ama não mata -não com uma faca ou com um revólver-, mas costuma fazer desaparecer a pessoa que conheceu e por quem se apaixonou, o que é uma forma de matar. Ou mata a si próprio.

Danuza Leão além de jornalista e escritora é personalidade marcante na vida social e intelectual do Brasil. Autora de Autora de livros de grande sucesso, é colunista do jornal A Folha de São Paulo.



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