quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ajudar e Ser Ajudado - Maria Guida

Acordei me sentindo totalmente desamparada.
É raro, para mim, acordar assim.

Enquanto me preparava para mais um dia de trabalho, uma imagem pessoal muito negativa começou a tomar forma. Eu me vi como alguém totalmente despreparada para realizar aquilo a que me propunha. Uma pessoa cansada, inútil.
Incapaz de ajudar ninguém.

Experimentei reagir, mudar o padrão. Não funcionou.
Então, fiz o que sempre faço quando esse tipo de coisa me acontece.
Aceitei que essas mensagens estavam vindo de algum lugar dentro de mim e, por isso mesmo, deviam ter uma função. Deixei que o discurso prosseguisse até o seu amargo fim.

No táxi, tendo como trilha sonora as notícias da CBN, compreendi, que se eu quisesse continuar minha caminhada em direção ao autoconhecimento, teria que encontrar, dentro de mim, a origem, o foco daquela destrutiva transmissão.

No elevador, o desgastado esquema de colocar a culpa nos outros, começou a tomar forma.
Pensei que alguma coisa externa precisava mudar.
Talvez mudar de trabalho?
De casa?
De Cidade?
De Estado?
De País?

Antes de abrir a porta, disse a mim mesma que se continuasse a seguir esta linha, teria que mudar de Universo. E, infelizmente, isso não seria possível, porque o Universo é só um.

Abri a porta e me deparei com as pessoas. Todas aquelas com quem eu compartilho o meu dia.

Enquanto cumprimentava cada uma, sem grande entusiasmo, a sensação de que nada de sólido existia entre eu e elas se tornava mais forte. Eu tinha consciência de que este era um sinal claro de que a separatividade estava ganhando terreno dentro de mim.

Como um animal que vai para o matadouro, percorri os conhecidos corredores, cumprindo o costumeiro ritual que o relacionamento profissional impõe.

Sem perder a noção do vazio interior que estava experimentando - mas obedecendo ao impulso natural de meu ascendente Áries - mergulhei de cabeça na rotina habitual: responder os e-mails recebidos na noite anterior.

O texto da primeira mensagem me chocou. Ali estava alguém que sentia exatamente a mesma coisa que eu, e que - ainda por cima - me pedia ajuda. Logo a mim, que me sentia totalmente vazia naquela manhã?

Engoli em seco. Lágrimas de impotência me vieram aos olhos. Pensei em fechar a caixa de mensagens e não responder.

Então, do fundo de mim mesma, alguma coisa muito tranqüila começou a emergir. Primeiro com timidez, e depois com crescente segurança, a pequena voz interior repetia mansamente:
- Vamos, lá! Diga a essa pessoa como você se sente. Seja franca e confesse que não está em condições de ajudar.

As mãos avançaram sobre o teclado, e iniciaram um texto cheio de desculpas e evasivas.

Na terceira ou quarta linha, porém, alguma coisa me fez parar. A pessoa lamurienta, que se recusava a compreender o sofrimento alheio, não era eu. Comecei a pensar na sincronicidade da coisa toda. Percebi que aquela mensagem havia aparecido diante dos meus olhos na hora certa.

Ali estava uma pessoa e sua dor. Seu sentimento de vazio e impotência, sua falta de fé em si mesma e também na presença divina que residia no templo de seu coração, eram idênticos ao meus.

Seu pedido de ajuda era o impulso de que eu tanto precisava para vencer a sensação de abandono que estava ganhando espaço dentro de mim.
Apaguei aquelas frases carregadas de desânimo e escrevi a única palavra que eu queria, com certeza dizer àquela pessoa: Obrigada!

Então, numa única torrente de palavras, comecei a explicar a ela porque estava agradecendo. Foi como abrir as janelas e deixar uma Luz muito mais potente que o sol, entrar.

Meus olhos estavam de novo marejados, mas era de pura, verdadeira alegria. Um sentimento intenso de gratidão me inundava tão fortemente, e me ligava a essa pessoa abençoada, que teve a magnífica idéia de vencer o seu orgulho e me pedir ajuda.

Pensei que eu também poderia ter feito isso, ter pedido ajuda a alguém.

Compreendi que a cada passo do caminho existe muito mais magia do que aquela que nós conseguimos compreender, ou sequer notar.

Falei sobre isso a essa pessoa desconhecida, no bem que ela havia me feito, em como o seu pedido de socorro havia agido sobre mim e transmutado a separatividade em sentimentos de comunhão, reconhecimento e paz.

Antes mesmo que eu terminasse de escrever, a esperança, a fé, o amor incondicional estavam de volta à minha vida.

No quarto momentaneamente obscurecido do meu coração, a Luz da Divina Graça ganhava nova força e resistia, insistindo em brilhar.

Tudo estava na mais perfeita ordem. Até mesmo o sentimento de desamparo que eu havia sentido tinha a sua razão de ser. Ele havia me ensinado que quando estamos nos sentindo desamparados, há uma coisa muito simples, que podemos fazer sem nos envergonhar.

Pedir ajuda. Abrir o coração. Compartilhar.

Porque, se somos todos um, não há diferença entre quem pede ajuda e quem se dispõe a ajudar.

Maria Guida
Email: mariaguida@gmail.com



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