terça-feira, 28 de junho de 2011

Reflexões sobre `O Feminino´ - Parte 2 - Flávio Gikovate

Considerações acerca da origem da guerra entre os sexos

O tema é excitante e fundamental e sobre ele venho publicando desde 1979. Confesso que foi só com o passar dos anos que me dei conta da importância de algumas das considerações que fiz na época. E a título de autocrítica, devo dizer que fui um tanto ingênuo por não ter percebido a relevância das minhas observações. O que diminui um pouco a sensação desagradável que essa constatação me provoca é o fato de que não fui o único a ter dificuldade em lidar com a questão das diferenças entre os sexos e principalmente extrair delas todas as suas conseqüências. O próprio Freud apontou o aspecto mais importante relativo às diferenças entre o masculino e o feminino – qual seja, o da existência de um desejo visual masculino que inexiste na mulher – em uma nota de rodapé de sua obra O mal estar na civilização, escrita em 1930. Jamais voltou ao assunto! Uma importante diferença entre os sexos consiste na ausência de período refratário após o orgasmo nas mulheres, diferentemente do que acontece com os homens, e quem primeiro a registrou foi Masters e Johnson; esses autores também não conseguiram extrair todos os desdobramentos que tão importante diferença impõe. É indiscutível a dificuldade que temos de estudar a nós mesmos!

Tentarei penetrar no círculo vicioso que determina a hostilidade recíproca entre homens e mulheres pelo ponto que considero o inicial: aquele que define as primeiras sensações dos homens diante da diferença entre os sexos que surgem junto com a sexualidade adulta. Registrei, há quase 20 anos, que a chegada dos primeiros impulsos eróticos mais intensos que, nos rapazes, acontece ao redor dos 13 anos – junto com o surgimento dos caracteres sexuais típicos da virilidade –, vem acompanhada de algumas sensações íntimas negativas e totalmente inesperadas. Os meninos crescem com a idéia de que são os privilegiados, uma vez que lhes ensinaram que o mundo é dos homens. O contrário acontece com as meninas, de sorte que muitas delas crescem revoltadas e invejosas da condição privilegiada que os meninos costumam ter em sociedades como a nossa.
Com a chegada da puberdade, os rapazes passam a sentir enorme desejo sexual por um sem-número de moças, desejo este que pede a aproximação e o roçar no corpo delas. A grande e inesperada surpresa é que tal desejo não é correspondido. Por essa eles não esperavam! A partir daí, desenvolvem uma sensação de inferioridade, frustrando-se pela ausência de reciprocidade. Desejar sem ser desejado da mesma forma gera uma enorme frustração em praticamente todos os moços. Tal sentimento muito comumente acompanha os homens ao longo de toda a vida.

Em geral, os rapazes atribuem, até hoje, o fato de não serem objeto de desejo visual à sua "precária" aparência física. Portanto, o que é baixo, gordo, narigudo, entre tantos defeitos que os adolescentes vêem em si mesmos, sente-se não-atraente devido a essas desvantagens relacionadas com sua imagem. Entendem a questão como um fato particular, condição na qual ficam muito deprimidos e ressentidos. Para eles, outros rapazes provocam o desejo que na verdade eles mesmos gostariam de causar, podendo desenvolver grande hostilidade invejosa em relação aos mais bonitos e charmosos. Seguramente, a beleza masculina é um elemento capaz de despertar o interesse das mulheres, mas é fato também que existe uma grande diferença entre despertar o interesse e o desejo. Não sabemos como reagirão os moços quando puderem crescer e chegar à adolescência já de posse dos dados relativos à nossa sexualidade que só agora estão começando a nos ficar mais claros.

A diferença, certamente, é de natureza biológica e independe da aparência física dos rapazes. Corresponde, como já apontado por Freud, à transferência para a zona da visão daquilo que, nas outras espécies de mamíferos, é próprio da olfação. O desejo é propriedade masculina, define um papel ativo para o macho no tocante à abordagem sexual. Nos mamíferos, em geral, tal característica não define qualquer diferença hierárquica: é apenas uma diferença. Na nossa espécie, existe a diferença e o que as mentes dos homens e, é claro, das mulheres pensam sobre ela. Não há, para nós, fatos desacompanhados das reflexões e ponderações que fazemos a respeito deles. Em geral, os homens sentem-se prejudicados pela constatação; registram a diferença na natureza do desejo como grande desvantagem, o que determina o surgimento de uma enorme hostilidade de natureza invejosa. Em 1979, apontei e enfatizei que a primeira manifestação invejosa adulta era do homem em relação à mulher, e não o contrário, que é voz corrente em psicologia.

A constatação de que o desejo visual é unilateral desperta no homem a consciência de que há uma vantagem feminina nesse ponto de vista, uma vez que ela terá que concordar com a aproximação física dele – ao menos no mundo civilizado, onde não é aceita a violência física para impor a intimidade sexual; entende-se também por esta via a origem do estupro: uma revolta, levada às últimas conseqüências, contra a diferença sexual. A concordância da mulher dar-se-á em decorrência de outros fatores que não o desejo visual, pois ele não existe da mesma forma como nos homens. O fato de um homem já desejar uma mulher e ter que esperar pelo veredicto dela para saber se poderá ou não se aproximar dela lhe determina, como disse, um forte sentimento de inferioridade acompanhado de uma profunda inveja, ou seja, de enorme hostilidade sutil e que tentará se exercer de forma um tanto dissimulada.

O que fizeram os homens? Beneficiaram-se de sua superioridade muscular e, quando tal propriedade era básica para o exercício das atividades fora de casa – o que se costuma chamar de "espaço público" –, trataram de se apropriar dos poderes que derivam de serem os detentores dos frutos do trabalho, o que, mais ou menos rapidamente, passou a corresponder a alguma forma de dinheiro. Como não poderia deixar de ser, levando-se em conta a inveja masculina e a necessidade de melhorar sua posição perante as mulheres, fecharam as portas do mundo do trabalho, de modo que a elas ficava reservado apenas o "espaço privado". Estavam fadadas a reproduzir e a cuidar da casa, dos filhos e dos seus esposos, de quem se tornavam totalmente dependentes para os fins de sobrevivência material.

A descrição que faço é superficial e um tanto esquemática, mas serve para demonstrar que os homens trataram de reverter sua sensação de inferioridade e de impor sua força sobre as mulheres. A força efetiva era a física, mas eles foram se tornando, aos poucos, muito competentes até mesmo naquelas atividades que não dependiam da supremacia física. Acredito firmemente que têm sido mais eficientes do que as mulheres nas atividades intelectuais apenas porque atribuíram a si tais tarefas – das quais elas foram ativamente alijadas – e não por força de alguma inferioridade feminina.
No entanto, não foi exatamente assim que o assunto foi colocado: passaram a considerar as mulheres como intelectualmente inferiores; esse tornou-se o discurso oficial de sucessivas gerações de homens. Gostavam de afirmar a suposta inferioridade feminina e se deleitavam na busca de argumentos a favor dessa tese; por conseguinte, o machismo se caracterizava essencialmente pela explícita atuação na direção de afirmar a supremacia masculina em todos os campos – com exceção do mais importante, que, para os homens, continuou sendo o sexual.

Gostaria de enfatizar que a inveja dos homens em relação às mulheres sempre esteve associada à frustração que eles sentem pelo fato de não se sentirem desejados sexualmente. Não são todas as diferenças entre os sexos que provocam a inveja, só aquelas que são percebidas como vantagem para o outro, como superioridade. Não creio, pois, que seja motivo de inveja o fato de a mulher poder engravidar e ter filhos; para os homens, isso é desvantagem e não privilégio; aliás, muitas são aquelas que também sentem como desvantagem o fato de ter que engravidar e ver seu corpo deformado por tantos meses. Igualmente, os homens não invejam a menstruação e nem as mulheres os invejam pelo fato de eles terem que se barbear diariamente. Inveja não subentende diferença e sim diferença interpretada como favorável ao outro.

As mulheres, ao se virem alijadas do espaço público e perceberem os enormes avanços que os homens eram capazes de fazer ao se dedicar às atividades relacionadas com o trabalho fora de casa passaram a sentir forte inveja do sucesso que tantos deles obtiveram em decorrência da competência que demonstraram nesse setor da vida. Na prática, surgia uma condição favorável à inversão de poderes, uma vez que agora eram as mulheres que passavam a querer se aproximar daqueles homens mais bem-sucedidos, do mesmo modo que estes sempre desejaram a intimidade com as mulheres mais atraentes. O que acabou acontecendo foi um equilíbrio entre os poderes masculinos – adquiridos, fruto da boa utilização da sua superioridade física e do afastamento intencional das mulheres de suas áreas de atuação privilegiada – e femininos – inatos, principalmente relacionados com a aparência física e a capacidade de despertar o desejo sexual.

Eis aí o ingrediente essencial para o estabelecimento e perpetuação da guerra entre os sexos: a inveja recíproca. Ela contém um elemento agressivo que deve se manifestar de forma sutil e disfarçada; os homens que ressentem muito as mulheres poderão se posicionar como se fossem encantados por elas – o que, de resto, é verdade. A inveja corresponde ao surgimento de reações agressivas em relação a alguém que admiramos muito justamente por ser portadora de características que também gostaríamos de ter. Assim, nosso sentimento por essa pessoa será sempre ambivalente. Na prática, tal mistura pode determinar uma conduta masculina muito típica do conquistador: o homem se mostra, sem muita dificuldade, encantado por uma dada mulher; faz de tudo para seduzi-la dando-lhe demonstrações de enorme interesse humano, quando, na verdade, o real interesse é essencialmente sexual; consegue induzi-la à intimidade física e depois desaparece de sua vida, fazendo-a sofrer muito; este último procedimento decorre do ingrediente agressivo, vingativo mesmo. É como se aquela mulher estivesse pagando por todas as outras que lhe despertaram o desejo. Desaparecer depois de seduzi-la é humilhá-la, fazer com que ela sinta dores similares às que ele sentiu quando as mulheres em geral o rejeitaram, especialmente durante os anos da puberdade. Muitos são aqueles que gastam boa parte de sua energia, ao longo de toda a vida adulta, nesse tipo de atividade, na qual não estão buscando apenas prazeres eróticos intensos, mas também tentando resgatar a auto-estima que perderam durante os anos da adolescência.

É muito peculiar à nossa inteligência a busca de comportamentos capazes de conciliar emoções antagônicas, como mostrado no exemplo acima. Não devemos nos apressar ao interpretar condutas humanas, pois elas podem estar a serviço de vários propósitos simultaneamente. É o caso da reação das mulheres em relação aos comportamentos masculinos que caracterizam o machismo. Ao perceberem que os homens se sentem diminuídos por desejarem e não serem correspondidos da mesma maneira, elas se empenham ainda mais em se tornar atraentíssimas. Fazem isso com o intuito de chamar-lhes a atenção e agradá-los? Esse ingrediente também está presente, parte do erotismo típico da vaidade; quando imaginam o desejo que irão despertar, poderão se deleitar antecipadamente e até se excitar sexualmente com isso. Tais ingredientes não excluem aquele de natureza agressiva derivado da inveja que elas também sentem dos homens – tanto a inveja derivada do período infantil, onde, de fato muitas meninas gostariam de ter nascido meninos, como aquela derivada do maior sucesso social e profissional que usualmente obtêm aqueles homens que são tidos como os mais interessantes; despertar-lhes o desejo sem permitir qualquer aproximação é o mesmo que levar uma criança pobre para olhar, através da janela, uma sorveteria. Há clara maldade na postura das mulheres que se empenham em se tornar enormemente atraentes, sobretudo quando o objetivo delas é apenas o de provocar o desejo masculino para que eles se sintam humilhados por uma eventual rejeição.

As moças percebem que dispõem de um importante poder de atração sobre os homens já nos primeiros anos da puberdade e adolescência. Com o crescer dos seios e o arredondar dos quadris elas passam a chamar a atenção e a atrair um determinado tipo de olhar diferente daquele que estavam acostumadas a receber durante os anos da infância. Trata-se de uma descoberta complexa, que pode ser entendida como a que determina a perda da ingenuidade. A ingenuidade não é perdida, segundo creio, quando um menino ou menina descobrem como nos reproduzimos e sim quando percebem – e as meninas parecem que saem na frente nesse aspecto – que existe um complexo jogo de poder entre os sexos e que a vida sexual não pode ser praticada com a simplicidade com que as crianças "brincam de médico". A descoberta do poder sensual por parte das moças leva muitas delas a um estado de timidez, de retraimento, sendo que algumas entram mesmo em pânico. Elas percebem que atraem os homens e isso as excita muito. Aquelas que sentirem medo da própria excitação, muito intensa e um tanto inesperada, ficarão totalmente inibidas naquelas situações propícias para provocá-los. O que farão? Tentarão minimizar seus poderes através do uso de roupas extremamente recatadas, ganhando peso, se tornando particularmente retraídas, etc. Na realidade, não aprenderam nem a "domesticar" seus impulsos sexuais e tampouco a instrumentalizá-los. Passam a sentir-se à mercê deles, ficam reféns de sua própria excitação, o que determina um estado de confusão psíquica capaz de gerar sintomas como os acima descritos, entre outros.

Flávio Gikovate: Médico Psicoterapeuta, Conferencista e Colaborador de várias revistas e jornais de grande circulação.
Site: http://www.flaviogikovate.com.br



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