terça-feira, 28 de junho de 2011

Reflexões sobre `O Feminino´ - Parte 3 - Flávio Gikovate

Considerações acerca da origem da guerra entre os sexos - continuação

Um certo grupo de moças aprende a lidar com sua própria sexualidade; elas passam a ter controle sobre esse instinto e perdem o medo de serem "desencaminhadas" por causa dele. Tal temor era mais intenso no passado, quando eram muito intimidadas por seus pais quanto às peculiaridades do sexo. Hoje, ao contrário, as de 13 anos "ficam" com os rapazes da mesma faixa etária nas festas e, através dessa sadia experiência, vão aprendendo a sentir a excitação sexual sem medos e sem receio de perder o controle sobre si mesmas. Aprendem isso por meio das sensações tácteis que as trocas de carícias determinam; notam que a excitação determinada por olhares de desejo não são de natureza diferente, de modo que perdem a ingenuidade e parte do medo que eventualmente experimentaram pelo fato de terem crescido e se tornado atraentes, e com isso aprendem a lidar com sua sexualidade. Percebem que muitas moças podem usá-la como arma de sedução e de humilhação em relação aos rapazes, mas nem sempre seguem por esse caminho.

Um outro grupo de moças, nada pequeno, percebe o poder que elas têm aos olhos dos homens, o qual será tanto maior quanto mais forem capazes de se vestir e de se comportar de determinados modos que eles sintam como particularmente excitantes. A excitação que isso lhes causa pode provocar uma certa perturbação íntima, mas aprendem a sentir mais prazer em provocar o desejo do que em sentir qualquer tipo de excitação sexual que não seja aquela derivada do exercício da vaidade. Para elas, despertar o desejo dos homens, tê-los rendidos aos seus pés torna-se o mais importante. Nesse caso, existe o benefício simultâneo de dois componentes do processo: a vaidade e o desejo agressivo; o ingrediente vingativo e invejoso passa a participar ativamente do fenômeno sexual. Aliás, é por razões dessa ordem que ainda temos muito que pensar sobre a dramática associação, presente em doses variadas, em quase todos nós, entre sexualidade e agressividade. Para tais moças, como regra as mais atraentes, o poder sensual se torna um instrumento de dominação, humilhação e uma arma muito poderosa. Sim, porque sabemos o quanto os homens são sensíveis a esse tipo de encanto.

Não posso deixar de registrar um importante subproduto derivado desses processos psíquicos tipicamente femininos e que têm a ver com o poder que, sem muito esforço, passam a ter a seu dispor. Surge uma importante e grave tendência, na maioria das moças mais atraentes, a se acomodarem na condição privilegiada que a natureza lhes criou. São muito bem-sucedidas socialmente, assediadas, convidadas para muitas festas e sempre muito bem recebidas pelos rapazes; tudo em virtude de suas propriedades inatas, de sua aparência física. Elas sabem que o mundo se curva aos seus pés, e que isso acontece mesmo que não façam nenhum esforço. Têm acesso ao que é tido como o que há de melhor sem ter que fazer outra coisa senão existir e se manter atraentes. Poucas são as que compreendem, na mocidade, que tais propriedades não durarão mais que umas poucas décadas e que seria importante que cultivassem outras prendas, tanto morais como intelectuais, capazes de gerar competências práticas que pudessem torná-las criaturas verdadeiramente independentes e produtivas. Julgam-se muito espertas porque têm tudo "de mão beijada" e não percebem que estão construindo um futuro muito sombrio para si mesmas.

A instrumentalização do poder sensual, executada justamente por um bom número das mulheres mais bonitas, atraentes e que são cobiçadas por muitos homens, acaba por ser percebida pelos mais inteligentes e perspicazes. O que eles fazem? Tratam de sofisticar ainda mais seus poderes e de instrumentalizá-los na mesma medida. Assim, muitos homens vão se apercebendo que só terão acesso a essas mulheres se tiverem boa posição econômica, social e profissional. Esforçam-se por conseguir tais distinções e, aparentemente, as oferecem às belas mulheres que tanto os encantam. Na realidade, apenas usam seus sucessos como uma espécie de "chamariz", da mesma forma que elas se utilizam da beleza. Mostram o que têm, mas não dão nada. Levam as belas moças para passear nos seus lindos carros, lhes dão "presentinhos" de valor duvidoso e tratam de, através de seus poderes, seduzi-las a partir da hipótese de que não é impossível que consigam conquistar um homem assim, um "vencedor". Eles, na verdade, buscam o sucesso essencialmente com o intuito de melhorar sua posição nesse jogo de poder que se estabelece em relação às mulheres mais belas; depois, querem mesmo é envolvê-las, ter a intimidade física desejada para, logo em seguida, rejeitá-las e humilhá-las. Elas aperfeiçoam suas armas por um lado e eles fazem o mesmo por outro.

Um número nada desprezível de homens pode reagir de forma diferente diante da instrumentalização da sexualidade feminina: inibem o desejo em relação a elas. Tal inibição poderá determinar uma variedade de sintomas que chamamos de impotência sexual, sobre os quais temos que refletir mais profundamente, uma vez que podem muito bem ser explicados por razões lógicas e até mesmo plausíveis e não sempre como uma patologia. Outros homens, especialmente quando outros fatores, que não cabe aqui discutir, também estão em jogo, não só inibem o desejo em relação às mulheres como o liberam na direção de outros homens. Não tenho dúvida que essa dramática condição de guerra entre os sexos é um importante fator causador do encaminhamento homossexual, principalmente em homens de índole delicada, pouco agressivos e de boa aparência física - talvez por isso mais tentados por olhares de desejo vindos de outros homens que já transferiram o desejo do sexo oposto para os do mesmo sexo.

A inveja recíproca só cresce, assim como as hostilidades. Tudo fica camuflado por uma aparente disposição de natureza romântica entre homens e mulheres, sendo que o que realmente está em vigor é uma terrível luta pelo poder. Não creio que se possa sequer pensar em ingredientes amorosos em tais condições - e que, na prática, corresponde apenas a um dos ingredientes que envolvem essa complexa condição de relacionamento entre os sexos. Nem mesmo se pode pensar em importantes ingredientes eróticos, uma vez que o elemento fundamental envolvido é mesmo o de natureza agressiva.

Minha intenção principal foi mostrar, a partir dessa sumaríssima descrição, como todos nós, homens e mulheres, nos perdemos de nós mesmos e, em virtude da forma como internalizamos e sentimos essa diferença na natureza da nossa sexualidade, nos tornamos escravos uns dos outros. Na realidade, nessa guerra, como em tantas outras, não existem vencedores e vencidos. Todos perdemos. Nos afastamos de nós mesmos, passamos a nos preocupar mais do que deveríamos com o que os outros pensam sobre nós e, em especial, os do sexo oposto. Homens e mulheres não buscam suas identidades, não podem se encontrar consigo mesmos e com suas verdadeiras pretensões. Tornam-se escravos dessa diferença sexual mal equacionada e mal aceita; além disso, perdem o contato com o sexo como fonte de puro prazer. A grande verdade é que, em nossa espécie, o sexo está associado à agressividade de uma forma muito mais categórica do que ao amor; é claro que muitas são as exceções.

Não estou defendendo a tese de que o sexo deve se associar ao amor. Acho que isso foi estimulado nas mulheres segundo os interesses dos homens. Não que não seja uma boa associação, mas esteve a serviço de intuitos repressores. Os homens poderiam ter sua sexualidade livre do amor, ao passo que aquelas mulheres que fossem competentes para o sexo fora do contexto romântico eram vistas como levianas ou prostitutas. Certamente, essa é mais uma manifestação da insegurança sexual masculina, que não poderia deixar de ser muito forte se levarmos a sério toda a descrição que acabei de fazer; eles fazem de tudo para tentar reprimir sexualmente as mulheres, sobretudo aquelas que lhes são relevantes - esposas, filhas, mães. Assim, mulheres "de bem" só podem ter interesse sexual no contexto da família ou, para ser mais moderno, num contexto amoroso. Faço parte daqueles que gostariam de ver a sexualidade podendo se exercer de forma livre, isolada e não como um impulso que está sempre acoplado a outros. Com isso, não estou deixando de considerar que pode haver associações e muito menos que a associação do sexo e do amor não seja uma coisa ótima. Não gostaria que associações fossem usadas com o intuito repressivo ou estivessem a serviço de empobrecer nosso principal instinto.

Flávio Gikovate: Médico Psicoterapeuta, Conferencista e Colaborador de várias revistas e jornais de grande circulação.
Site: http://www.flaviogikovate.com.br



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