terça-feira, 28 de junho de 2011

Reflexões sobre `O Feminino´ - Parte 5 - Flávio Gikovate

4. Outras peculiaridades do "feminino"

Serão abordados, ainda, dois elementos próprios da biologia feminina e que interferem muito no modo como as mulheres se comportam. O primeiro deles tem a ver com o ciclo menstrual e com as variações hormonais que ocorrem, aproximadamente, a cada 28 dias. Antes, porém, gostaria de lembrar que pertenço a uma geração de médicos que foi formada dentro de uma visão ainda predominantemente masculina, até mesmo no que dizia respeito às questões femininas. Isto é, até há poucas décadas, eram poucas as profissionais da área médica que fossem mulheres. Elas eram franca minoria e suas opiniões valiam pouco até mesmo quando falavam da sua própria condição subjetiva. Por exemplo, algumas das pioneiras da psicanálise eram do sexo feminino e, enquanto pacientes de Freud, travaram feroz polêmica com o mestre que insistia em ensiná-las a se colocar num papel feminino que ele considerava que era próprio e indicador adequado do que ele entendia como maturidade emocional da mulher. O modelo de maturidade feminina era, pois, produzido no interior de um cérebro masculino.

Minha geração se formou envolvida por concepções tipicamente "machistas", nas quais as cólicas menstruais eram tidas como "manha" – ao menos em boa parte – e a tensão pré-menstrual uma invenção das mulheres com o objetivo de encontrarem justificativa para seus maus gênios e irritações indevidas. As "coisas de mulher" eram tidas como "frescura", como sintomas histéricos. Elas eram tratadas, sob o aspecto da fisiologia hormonal, da mesma forma que os homens e tudo aquilo que nelas fosse diferente do que eles vivenciavam era desconsiderado e tratado como problema psicológico, imaturidade emocional, falta de firmeza e caráter.

O que estava por trás dessas concepções era a dificuldade humana de entender o outro, e principalmente um outro que é essencialmente diferente de si mesmo. Como os homens não vivenciam alterações hormonais tão substanciais ao longo de cada mês de vida, não foram – e ainda hoje não o são, a não ser com muito esforço – capazes de entender e de dar genuíno peso ao que se passa no íntimo das mulheres. Até os que são portadores de enorme boa vontade e desejo de entender têm dificuldade em penetrar na alma feminina e tentar entender como é que elas sentem as variações do estado físico e como isso interfere sobre o emocional. Como fica sexualmente uma mulher no período da ovulação? Em que isso altera seu estado emocional, sua disposição afetiva? Como é que um homem poderá pensar sobre isso com algum rigor?

É claro que existem obstáculos intransponíveis na comunicação que tentamos estabelecer com outros humanos, especialmente de sexos opostos. As mulheres tentam nos explicar o que sentem, mas nem sempre conseguimos acompanhar a sua descrição. Ao menos já somos capazes de acreditar que existem efetivas mudanças físicas capazes de determinar alterações emocionais derivadas das constantes alternâncias hormonais femininas. Já conseguimos imaginar que os problemas psíquicos usuais no climatério podem estar sendo complicados por fatores orgânicos sobre os quais tentamos interferir através da reposição de hormônios.

Assim, as diferenças entre os sexos não residem apenas na presença da menstruação das mulheres. Ela é a manifestação mais visível de uma série de processos hormonais que não existem nos homens e que fazem a vida das mulheres – ou pelo menos de um grande número delas – mais difícil de ser dirigida de modo firme e consistente para um norte. Sim, porque a presença de tantas variações ao longo das semanas cria dúvidas e instabilidades psíquicas que podem determinar alterações na motivação e no modo como elas pensam sobre seus próprios projetos de vida. Penso que é muito mais difícil para uma mulher se determinar e perseguir com afinco um dado objetivo. Isso torna mais meritório o feito daquelas que conseguem ter sucesso nesse tipo de empreitada. O inverso também é verdadeiro: a falta de consistência e firmeza na perseguição de objetivos não deve ser motivo de tanta perplexidade, uma vez que a alma feminina é, nesse particular, muito prejudicada por sua natureza biológica. Tarefas que exigem estabilidade psíquica e um estado emocional constante e mais racional podem ser muito mais difíceis de serem realizadas por mulheres.

Muito pouco a mais nós, homens, podemos dizer sobre o que acontece dentro das mulheres por força do ciclo hormonal no qual gravitam. Em decorrência de uma postura menos arrogante, é possível saber que existem diferenças substanciais entre os sexos e tentar entender o outro tomando por base o que podemos perceber nele e não a nós mesmos. Portanto, alterações do humor, modificações da disposição sexual, irritabilidade e descontrole agressivo podem ser facilitados, senão totalmente determinados, pelas alterações hormonais. Tais oscilações determinam efeitos variados em cada mulher, de modo que a inexistência de "sintomas" em umas tantas não é indício de falta de consistência na queixa de outras. Somos todos diferentes e as mulheres também o são entre si.

Outra peculiaridade feminina à qual deveremos dedicar nossa atenção diz respeito à maternidade. Nesse caso, nós, homens, sentimos, mais uma vez, uma enorme dificuldade para entender exatamente o que se passa com o corpo e principalmente com a mente de uma criatura que sente crescer dentro de si outro ser. O que significa exatamente a percepção de que uma criatura se move dentro do próprio ventre? Jamais poderemos apreender tudo o que se passa com uma mulher que vive esse estado. Podemos observar, de fora, que as reações psicológicas são muito variadas e que vão desde um certo desconforto pelo fato de ela perceber que está se deformando e ganhando estrias, até o deslumbramento total pela experiência da maternidade, com total descaso por todos esses aspectos pessoais – e mesmo descaso em relação a eventuais reivindicações do marido. Muitas são as mulheres que, ao longo da gestação, perdem totalmente o interesse sexual – será isso determinado por razões hormonais? –, enquanto que outras mantêm aceso o desejo. Elas se tornam distantes dos seus parceiros, uma vez que se sentem mesmo é em simbiose com seus fetos. Outras não se apegam tão intensamente e nem se sentem tão completas pelo fato de terem uma criatura se desenvolvendo dentro de si.

De todo o modo, a partir do parto, cujas dores também são variáveis e não deveriam ser subestimadas pelos homens, surgem muito intensamente as manifestações daquilo que, entre os mamíferos, chamamos de instinto materno, ou seja, um forte impulso na direção de proteger e cuidar do recém-nascido. Surgem o leite e o desejo de alimentar o bebê. Em umas tantas mulheres, não observamos tão claramente esses fenômenos, uma vez que parecem mais preocupadas consigo mesmas do que com seus filhos.

Pode ser que em muitos casos esteja acontecendo um quadro depressivo – nada incomum nessa fase da vida e derivada de causas múltiplas e ainda não muito bem conhecidas –, mas em outros, a mulher não parece ser portadora de nenhum instinto de proteção da prole.
A questão dos instintos em nossa espécie é sempre muito complexa, uma vez que a razão pode determinar nossas ações de uma forma muito mais definitiva do que os fenômenos inatos que nos fazem parecidos com nossos ancestrais mamíferos. Assim, mulheres muito egoístas têm menos gosto pela amamentação e por todo o tipo de atividade que envolva dedicação, abnegação e sacrifício. Tais criaturas, até mesmo quando estão na condição de mães, vendo que seus bebês são totalmente dependentes, são acomodadas e sempre encontram um jeito para que outras pessoas executem seus afazeres e cuidem de seus filhos.

A maior parte delas, porém, tende a ser muito apegada aos seus filhos, condição que muitas vezes determina irritação e ciúmes nos seus companheiros. É importante que se compreenda que ser mãe é uma empreitada que se inicia em algum ponto de quarto mês de gestação, momento em que a criança dá sinais de existência autônoma ao se mover dentro do ventre. Ser pai é uma condição psicológica que, como regra, se inicia lá pelo quarto mês de vida da criança quando ela sorri para ele, ou seja, quando o reconhece. A idéia de envolver o pai já durante os meses da gravidez parece interessante, mas não acredito que possa deixar de, na prática, redundar em procedimentos um tanto superficiais. Não sabemos se existe algum tipo de comunicação efetiva entre a mente da mãe e a do feto e menos ainda sobre a possibilidade de o pai se comunicar com ele, de modo que conversar com o feto me soa um tanto patético. Não creio que exista nada de instintivo na paternidade, trata-se de um papel aprendido e uma afeição que se estabelece a partir do convívio e das trocas de carinho e de sinais de afeição que costumam crescer com o passar dos meses e dos anos.

É muito importante refletirmos um pouco sobre a questão do instinto materno e da maternidade em geral. Costumamos pensar, já que a isso fomos induzidos pela tradição cultural na qual estamos mergulhados, que a pulsão que faz as mulheres desejarem tanto procriar seja a manifestação do dito instinto. Gostaria de colocar minha opinião contrária a essa idéia: acredito que o instinto materno só se manifesta quando do nascimento da criança e, portanto, não tem relação nenhuma com o desejo de ter um filho. No passado, o instinto responsável pela gestação era o sexual. Ele não pede a gravidez, mas sim intimidade entre um homem e uma mulher da qual sempre resultou, como um "efeito colateral", a gestação. O forte instinto sexual que possuímos esteve sempre a serviço do prazer e da reprodução. A separação entre sexo e reprodução só se deu muito recentemente, a partir do surgimento dos recursos anticoncepcionais, notadamente daqueles de uso e controle feminino – o surgimento da pílula foi, sem dúvida, um dos fatos marcantes do século XX.

O desejo de ser mãe não é, a meu ver, expressão de natureza instintiva. Trata-se de um prazer pessoal, hoje totalmente desvinculado inclusive de qualquer tipo de necessidade social. Se, no passado, a reprodução era necessária para fins da perpetuação de uma espécie que padecia de muitas adversidades que poderiam facilmente levá-la à extinção, hoje a natureza agradeceria aos casais que decidissem não ter filhos, uma vez que o planeta está superpopulado e com graves problemas ecológicos. Se, no passado, a reprodução estava também muito vinculada aos interesses dos pais, já que os filhos trabalhariam para eles, sobretudo nas áreas rurais, e cuidariam deles nos anos da velhice, nos dias de hoje os jovens casais deveriam perguntar com muita determinação e coragem se querem ou não ter filhos, se estão dispostos a pagar o preço de criá-los para que depois partam convictos de que não devem nada àqueles que os geraram e que cuidaram deles com carinho por tantos anos.

Se formos capazes de pensar para além da tradição, cabem perfeitamente as perguntas: vale a pena ter filhos nos dias de hoje? O que podemos esperar deles no futuro? Qual o sentido, para os humanos, de esforços sem recompensas? Seremos capazes de nos dedicar desinteressadamente a eles sem, de fato, esperar nada em troca? Saberemos deixá-los crescer e ir embora, na busca do seu próprio destino? Como nos comportaremos se eles "saírem" muito diferentes daquilo que sonhamos? Meu intuito, com essa salva de questões de difícil resposta, é mostrar como temos sido levianos em relação a aspectos fundamentais da vida. Inventamos a pílula anticoncepcional – entre outros recursos que nos permitem decidir se e quando teremos filhos –, invertemos, através de aspectos educacionais, os tradicionais elos entre pais e filhos – agora os filhos sentem-se credores vitalícios dos seus pais; portanto, desapareceram as conveniências que nossos ancestrais tinham com a reprodução e nem por isso pensamos seriamente se queremos ou não ter filhos. Apenas cumprimos o ritual de tê-los sem saber ao certo o que estamos fazendo. Os temos porque todo o mundo os tem e, portanto, deve ser bom tê-los. Isso não é modo de pensar. Não é à toa que tantas pessoas se arrependem de ter filhos mas, como dizia o poeta, só depois de tê-los tido.

Temos que pensar mais profundamente sobre nosso destino se quisermos nos dar bem nessa vida e parar de catalogar as pessoas, mormente aquelas que se comportam de modo diferente do nosso. Quando uma mulher declara que não quer ter filhos porque prefere se dedicar aos seus afazeres profissionais, é rotulada de egoísta. Ora, o que leva a maior parte das mulheres e dos casais a ter filhos senão o egoísmo deles? Como o planeta não necessita da reprodução, as crianças nascem porque os pais querem se ver perpetuados neles, querem um "brinquedo" que os entretenha e que fortaleça o vínculo conjugal, isso quando interesses ainda menos nobres não estão envolvidos no processo reprodutor. As pessoas dizem que a vida é dura e difícil, que é rica em sofrimentos, que a consciência da própria morte é uma dor insuportável e ainda assim concebem um novo sofredor. Geram por deleite próprio e, nos dias de hoje, sem nenhum grande interesse posterior, uma vez que os filhos já entenderam que, ao não terem "pedido para nascer", em princípio não devem nada aos seus pais.

É preciso aprender a respeitar as pessoas que pensam de modo diferente de nós. Decidir não ter filhos é uma opção digna e não está relacionada com o egoísmo. Não há nenhuma razão para que tantas mulheres se envergonhem de não os terem, como se fossem desprovidas de algum ingrediente instintivo muito nobre. O único motivo que leva uma mulher ou um casal a ter filhos é o que deriva do desejo que sentem de terem crianças por perto para que com elas possam brincar e desfrutar dos prazeres e agruras de acompanhar o seu crescimento. Não se trata de uma função nobre e sim de um prazer pessoal que só deveria ser exercido por pessoas que, de fato, gostam muito de conviver com crianças. Os que decidirem dar outro rumo a suas vidas não têm nada do que se envergonhar e nem podem ser vistos como menos dignos ou privados da nobreza de alma que leva as pessoas à reprodução. O mundo do futuro é o da multiplicidade de opções de modos de vida, sendo desnecessário e inconveniente hierarquizarmos as diversas fórmulas, ou seja, não existem formas melhores ou piores de viver, mas sim diferentes.

Flávio Gikovate: Médico Psicoterapeuta, Conferencista e Colaborador de várias revistas e jornais de grande circulação.
Site: http://www.flaviogikovate.com.br



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