terça-feira, 28 de junho de 2011

Reflexões sobre `O Feminino´ - Parte 6 - Flávio Gikovate

Em busca do que realmente é o feminino

A essa altura, saímos do domínio do que é mais ou menos conhecido para o que nos é completamente desconhecido. Já somos capazes de descrever algumas das propriedades que caracterizam o feminino, as quais são diferentes das masculinas e que jamais deveriam ser comparadas com elas, pois é um grave erro lógico comparar objetos ou seres que são qualitativamente diferentes. Já pudemos perceber que muitas das peculiaridades consideradas como parte inerente do feminino foram impostas às mulheres através de pressões sociais que tinham como base principal a inveja e a insegurança que os homens sempre sentiram em relação a elas. Jamais deveríamos nos render e acatar com facilidade afirmações do tipo: "ser homem é ser assim" e "ser mulher é ser assado"; ou, então, que "o homem foi feito para isso" enquanto que "a mulher foi feita para aquilo".

Temos que nos ater e pensar um pouco sobre o modo como a tradição pesa sobre nós. Parece evidente que concepções antigas, que estejam muito afastadas dos sentimentos humanos atuais, tendem a desaparecer mais ou menos rapidamente. Isso é verdadeiro para a maioria dos casos: não há mais razões para a manutenção da virgindade feminina até o dia do casamento, graças ao surgimento dos anticoncepcionais, e o chamado "tabu da virgindade" deixou de vigorar quase que em seguida. Alguns preceitos tardam muito em se modificar até porque temos forte tendência a nos apegar a velhas idéias. Não nos agradam as novas concepções que nos obrigam a abrir mão dos nossos pontos de vista e rever muitos dos nossos conceitos; não gostamos de mudar de opinião, como se isso implicasse em um trabalho similar ao que temos quando mudamos de casa - e quantos também não gostam de mudanças no plano das coisas concretas? Novas concepções exigem rearranjo em várias outras idéias e, para as pessoas que buscam a coerência, implicam também em mudanças de atitudes. A resistência que sentimos diante do dispêndio de energia que tais mudanças inevitavelmente determinarão, uma espécie de preguiça mental que nos caracteriza, nos leva a posturas conservadoras, a repetir o que aprendemos sem exercermos todo o poder de crítica que nossa inteligência permitiria.

As coisas são mais fáceis quando antevemos vantagens substanciais ao aderirmos a novas concepções, da mesma forma que é mais fácil mudar para uma casa nova mais bonita e mais confortável. Alterações nos padrões sexuais que nos tornaram mais livres e com mais condição para usufruir dos prazeres aí envolvidos aconteceram de forma mais rápida do que aquelas que têm a ver com a igualdade de direitos e de salários das mulheres, condição que não favorece em nada o pensamento masculino tradicional, ao menos à primeira vista. Somos mais rápidos para fazer as mudanças que nos favorecem e tendemos a desacelerar aquelas que não nos beneficiam. Assim, nem tudo o que tem durabilidade, que tem persistido ao longo de gerações, constitui sabedoria digna de ser respeitada. Muitos conceitos apenas sobrevivem porque estão a serviço da preservação de privilégios das minorias que detêm o poder social.

Além disso, temos que ter cautela com as "meias-verdades", com as idéias que podem ter uma certa consistência, mas que são usadas para fins escusos. Assim, a afirmação de que as mulheres só são capazes de se realizar sexualmente em um contexto romântico, ao passo que os homens separam perfeitamente o sexo do amor é compatível com o que costumamos observar. Não significa, porém, que estejamos diante de uma verdade biológica. Talvez seja mais adequado dizer que à maioria delas não tem interessado o sexo sem envolvimento amoroso. Aliás, mais preciso ainda seria dizer que elas não desenvolveram o gosto pelo sexo sem seu acoplamento a alguma outra finalidade. Possivelmente, a inexistência de período refratário dificulte que as trocas de carícias ganhem interesse por si só. As mulheres preferem o sexo acoplado ao envolvimento amoroso ou, em certos casos, a interesses práticos bem definidos - como é o caso do dinheiro para aquelas que são prostitutas. As coisas poderão se alterar a qualquer momento e elas poderão perfeitamente passar a vivenciar o sexo como fonte de prazer e não como instrumento para atingir outros objetivos. Creio mesmo que mulheres mais livres e emancipadas, tanto emocional como economicamente, em breve passarão a ter uma outra idéia a respeito das trocas eróticas.

Não estou querendo, em hipótese alguma, entrar pelo caminho feminista de que as mulheres emancipadas gostarão de ser e de fazer tudo aquilo que os homens fazem, até porque não acredito que os homens sejam criaturas mais livres do que elas. O que estou querendo é reafirmar minha idéia de que o que hoje se entende como constituinte do feminino corresponde a um conjunto de conceitos que muitas vezes foram impostos às mulheres em virtude dos interesses masculinos e dentro de um contexto, já descrito, belicoso e hostil. Assim, as mulheres terão que ir atrás de encontrar-se consigo mesmas, usando a si próprias como referenciais e não os masculinos - tradicionais ou atuais. Cabe um outro exemplo: não sei se as que são emancipadas terão em relação ao trabalho a postura que é usual nos homens, nem se irão forçosamente transferir para esse setor da vida toda a vaidade e todo o vigor competitivo que os homens costumam imprimir a ele, nem se isso é obrigatório e parte inexorável do sucesso - isto é, se os que mais competem e se desgastam são sempre os que vão melhor e mais longe - e nem também se as mulheres não irão estabelecer uma relação mais saudável com o trabalho, onde o estresse não seja tão intenso e destrutivo.

Como a vaidade feminina se dirige, em grande parte, para o físico -, o que acredito ser mais saudável, uma vez que a vaidade intelectual só gera malefícios até mesmo à saúde, pois é fato que os homens vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres - é possível que o trabalho feminino seja caracterizado essencialmente pela busca de prazer intrínseco e corresponda a uma atividade que redunde em bons resultados para o meio social. Pode ser que isso lhes pareça mais importante do que as ações onde o destaque e o sucesso estejam acima desses valores intrínsecos. Não estou querendo ser retrógrado, mas o prazer que podemos retirar de uma atividade pode, muitas vezes, ser mais importante do que a remuneração e o prestígio nela contidos. As enfermeiras e outras prestadoras de serviço nem sempre muito bem remuneradas, inclusive as professoras, sempre foram, e continuam a ser, criaturas que possuem uma alegria interior e um sentido de realização que muitos profissionais destacados, em áreas onde não existe a clara ação de beneficiar terceiros, não sentem e se ressentem por não senti-lo. É possível que, nessa área, sejam os homens que tenham muito a aprender com as mulheres, sempre encantadas com atividades úteis ainda que repetitivas e monótonas. A riqueza da atividade, para a mulher, sempre esteve relacionada com o prazer em servir, com a dedicação a terceiros, e não com o destaque que o trabalho pudesse determinar. O destaque feminino já acontece por razões sexuais, pelo fato de elas serem atraentes aos olhos dos homens. O trabalho esteve, pois, a serviço de se sentirem úteis e de prestarem serviços de efetivo interesse social.

Na questão do trabalho, como em todas as outras que dizem respeito ao que seja efetivamente o feminino, estamos engatinhando. Já somos capazes de fazer perguntas mais claras, mas ainda não estamos em condições de respondê-las com firmeza. Gostaria de tentar me fazer entender no que penso ser o essencial: acredito que as mulheres buscam, no trabalho, prazeres intrínsecos a ele, ao passo que os homens o vêem como um veículo para o destaque, o sucesso econômico e a melhora de sua posição erótica perante as mulheres. Nada impede que uma mulher, no exercício de sua atividade, se destaque. Digo apenas que a busca do destaque como primeira intenção não é da natureza da maior parte das mulheres, pois buscam isso por caminhos que não passam pelo trabalho. O maior perigo feminino é, a meu ver, o de se tornarem escravas do prazer de servir e perderem a capacidade de pensar e agir em causa própria. O prazer de dar pode se hipertrofiar de modo a se transformar num vício, em algo que determina grande dependência. Quantas mães não se deprimem - e muitas delas se tornam até alcoólatras - quando seus filhos crescem e não precisam mais delas? Aliás, é bem provável que a maternidade seja importante reforçador dessa tendência feminina para servir. Não é à-toa que muitas das que buscam um modo de vida mais voltado para si mesmas, indo ou não atrás do sucesso social típico dos homens, tenham optado por não ter filhos. Conforme já afirmei, não vejo razão para censurá-las e nem chamá-las de egoístas. Talvez tenham tido uma visão mais clara dessa contradição feminina, através da qual parece ser mais fácil agir por si e para si quando a mulher está só, desvencilhada de elos afetivos mais intensos. Digo que se trata de uma contradição porque o desejo de aproximação amorosa, de constituir família e ter filhos também é muito forte na grande maioria delas.

Os homens têm muita dificuldade de entender certos desdobramentos dessa peculiaridade do feminino, através da qual mulheres inteligentes, independentes, auto-suficientes profissionalmente e mesmo competentes para viver sozinhas se tornam, repentinamente, em virtude do envolvimento amoroso, submissas, dóceis, dependentes e dispostas, aparentemente sem nenhuma dor, a abandonar suas carreiras. Não entendem porque jamais agiriam dessa forma, uma vez que, para eles, o trabalho é o meio pelo qual se sentem interessantes aos olhos femininos e perderem a posição social é o mesmo que perder a admiração e o amor das mulheres. Estas, por sua vez, sentem de forma completamente diferente: não acham que são amadas pelos seus méritos profissionais, muitas sentem exatamente o contrário: que o sucesso profissional afasta os homens delas. Acreditam que possam ser amadas por seus dotes físicos, pelas virtudes de caráter e pela capacidade de servir aos homens e aos filhos. Sabem que o trabalho não lhes será tão vital porque não interfere na questão da vaidade, que podem voltar a trabalhar em outro momento e não pensam que deixarão de ser amadas por terem optado pela vida em família.

Muitas ainda sentem que fazem isso em virtude das pressões masculinas, o que pode apenas ser uma coincidência: a pouca capacidade para conciliar o trabalho pessoal com a vida amorosa é uma peculiaridade do feminino. Podemos comprovar isso, de um modo cada vez mais fácil, nos dias de hoje, uma vez que cresce o número de homens que não mais se aborrecem pelo fato de suas mulheres se dedicarem a uma atividade profissional própria. Ao contrário, muitos ficam perplexos e até mesmo um tanto entristecidos por causa da atitude de suas mulheres de abandonar seus afazeres. Eles sentem sua vaidade exaltada pelo fato de estarem unidos a mulheres bem-sucedidas profissionalmente, de modo que, desse ponto de vista, passaram a gostar de exibi-las não só como atraentes, mas também como criaturas que vão bem no mundo do trabalho. Não creio que esse seja um bom motivo para que elas se dediquem mais ao trabalho fora de casa, nem que elas devam abandonar suas atividades de forma tão rápida e leviana, uma vez que muitas irão se arrepender ao longo dos anos seguintes. Voltar ao mercado de trabalho sempre será uma tarefa difícil, além de esbarrar, aí sim, com obstáculos familiares, uma vez que maridos e filhos se acostumaram a ser servidos e a tê-las à sua disposição. Subtrair privilégios é uma tarefa muito difícil.

Quando sozinhas, costumam se dar muito melhor do que os homens; são muito mais independentes e conseguem gerir suas questões concretas sem nenhuma dificuldade. Um fato curioso é que, ao se envolverem sentimentalmente, tendem a desenvolver imediata dependência prática em relação aos seus amados. Insisto em afirmar que não é essa a expectativa masculina; isso causa uma certa decepção na maioria dos homens que optaram por se unir com mulheres independentes. É intensa a tendência delas no sentido da descaracterização e despersonalização de si mesmas no curso do fenômeno amoroso. Mulheres independentes passam a preferir que seus companheiros ditem as regras, que assumam todas as responsabilidades. Abrem mão até mesmo do gerenciamento de questões que lhes são essenciais, como é o caso da reprodução.

Como podemos entender que uma mulher inteligente seja a favor de uma "pílula do homem", condição na qual a responsabilidade por uma futura gestação sai de suas mãos? Penso que tais peculiaridades terão que ser mais bem entendidas; para elas, não encontro nem mesmo hipóteses que possam iniciar a tarefa de reflexão.

Flávio Gikovate: Médico Psicoterapeuta, Conferencista e Colaborador de várias revistas e jornais de grande circulação.
Site: http://www.flaviogikovate.com.br



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