terça-feira, 28 de junho de 2011

Reflexões sobre `O Feminino´ - Parte 7 - Flávio Gikovate

5. Em busca do que realmente é o feminino - parte final

Faremos um grande avanço no entendimento do que seja o feminino se pudermos compreender melhor a relação das mulheres com a maternidade, cujas observações iniciais tentei esboçar no capítulo anterior. Por que a grande maioria delas continua a desejar tanto ter filhos? É preciso pensar sobre esse assunto e não simplesmente dar a ele respostas óbvias. Ter ou não filhos define dois caminhos muito distintos para as mulheres, uma vez que a maternidade implica, para aquelas moralmente mais bem formadas, em pesados sacrifícios no que diz respeito aos projetos pessoais. Como já têm, segundo penso, uma dificuldade maior para dar um sentido, definir uma meta para suas vidas, acabam por ter que renunciar aos seus já frouxos projetos em virtude de se tornarem mães. Isso não seria triste se não se arrependessem mais tarde, se não se sentissem prejudicadas nos objetivos pessoais que tantas defendem com tão pouca ênfase. Ter um filho implica em uma série de gratificações, satisfações e também em muitas limitações, que sempre serão maiores para as mulheres do que para os homens. Assim, jamais deveriam ter um filho com a intenção de agradar - e muito menos de prender - o homem. O ônus acabará sendo dela e o compromisso derivado de ter gerado uma vida é sério, de modo que não pode ser abandonado em caso de arrependimento.

Como elas têm, certamente por várias razões além das que registrei acima, maior dificuldade de dar um rumo firme à sua vida individual, acabam por se "diluir" e por "aderir" ao projeto dos homens com quem estão vivendo. A idéia é interessante e pode fazer com que o par se una mais intensamente, agora também em busca de objetivos em comum. Só que muitas são as vezes em que a aliança amorosa se rompe, condição na qual as mulheres se ressentem duplamente: perdem o parceiro e também o projeto de vida! Além do mais, não é impossível que os homens façam, de repente, alterações nos seus projetos e que tais mudanças não estejam de acordo com os pontos de vista das suas mulheres. O que fazer? Como continuar a apoiar um projeto com o qual não concordam? Situações difíceis desse tipo poderiam muito bem não existir se elas tivessem construído projetos individuais.

É claro que a existência de tais projetos limita suas possibilidades afetivas, uma vez que a falta de rumo permite o acoplamento, ao menos teoricamente, a um sem-número de parceiros. É como se a mulher se mantivesse indiferenciada, esperando para saber quem será o seu companheiro; a partir daí, irá se definir em função dele. A razão disso seria a ênfase dada ao amor, prioridade sobre o projeto e a realização individual. Talvez exista também um medo relacionado com a postura inversa: mulheres muito determinadas profissionalmente seriam menos interessantes para os homens, de modo que o medo da solidão seria importante fator da indefinição pessoal feminina. Não existe situação similar na psicologia masculina. Ao contrário, os homens temem não serem interessantes para as mulheres exatamente quando não são muito definidos e bem-sucedidos no mundo do trabalho, que aqui está sendo tratado como sinônimo de projeto pessoal.

Na prática, as possibilidades afetivas já são limitadas para todos nós. Isso se considerarmos que os pares que pretendam viver em concórdia deverão ter afinidades cotidianas de todos os tipos, além de postura ética e projetos convergentes. Assim, de nada serve essa indiferenciação que as mulheres se impõem com o propósito de ampliar o "mercado matrimonial". Poderão se casar com maior facilidade, mas o mesmo acontecerá com o divórcio. Sim, porque os verdadeiros pontos de vista e os anseios das mulheres irão querer se externar, de modo que, mais dia, menos dia, surgirá o conflito entre o desejo amoroso de fusão com o amado e o desejo de ser um indivíduo com projeto pessoal definido. Seria interessante que as mulheres pensassem nisso desde o início de suas vidas adultas, de modo a não imaginarem que o amor realmente suporta tamanha renúncia; e mesmo que isso seja verdadeiro em alguns casos, é provável que acabem por se revoltar contra o que elas mesmas aceitaram. É evidente que seria mais interessante que uma mulher que tenha escolhido uma determinada rota para sua vida venha a se vincular com um homem que tenha optado por um rumo compatível e vice-versa. Ou seja, é possível que, no futuro, não venhamos a nos vincular apenas porque nos amamos, mas também por pretendermos viver o mesmo tipo de vida e atingir os mesmos objetivos.

Acredito firmemente que todo o ser humano tem que se empenhar com mais vigor exatamente naqueles setores de sua subjetividade onde residem suas maiores dificuldades. A questão do trabalho e do encontro de um rumo definido e pessoal costuma estar associada, para a maior parte das mulheres, a grandes tensões e a terríveis contradições internas. Assim, é justamente nessa direção que a atenção feminina deveria se dirigir com grande firmeza, sempre visando superar as limitações que não creio serem definitivas. Entre amor e individualidade deveremos encontrar um modo de ficarmos com os dois. Não há escolha estável entre duas condições que ansiamos muito. É urgente, pois, que as mulheres deixem de ver o amor como prioridade sobre o fato de poderem ser elas mesmas e existirem como indivíduos além de serem membros de um par. E mais: a forma de ela exercer sua individualidade não deverá ser idêntica à do homem e tampouco terá que ser igual a relação dos dois sexos com o trabalho. A busca do que seja o modo de ser - e de participar da vida - genuinamente feminino é tarefa que somente elas poderão cumprir. Quando soubermos melhor o que é que efetivamente desejam para si, tanto elas serão mais felizes como estará bem encaminhada a melhoria das relações entre os sexos. Estar bem consigo mesmo é requisito indispensável para o estabelecimento de relacionamentos menos agressivos e mais consistentes.

Ao tratar da questão da identidade, no caso, a feminina, insisto sempre em ser prolixo a respeito do trabalho, porque ele compõe, junto com o amor e as complexas peculiaridades de nossa sexualidade, o tripé básico da nossa vida íntima. Existem inúmeros outros aspectos que poderiam ser abordados e que são também de grande importância, mas que não cabem no contexto desse ensaio. O mais comum é que as pessoas dêem um rumo para suas vidas através do trabalho, entendido como atividade produtiva e útil para a comunidade. Na verdade, não é exatamente só a isso que estou tentando me referir. Penso em qualquer tipo de atividade que ajude a pessoa a evoluir, a conhecer melhor a si mesmo e à vida, a se posicionar com mais sabedoria, constância e serenidade diante dos novos desafios, a ter uma postura e ser uma criatura coerente, com começo, meio e fim que combinem entre si.

Penso em criaturas que, movidas por qualquer tipo de atividade que as satisfaça e engrandeça, tenham uma relação com o dinheiro, com a aparência física, com as relações sociais, com a sexualidade e com o amor que se encadeiem entre si de modo a que um aspecto não se choque com o outro. Penso em criaturas cuja maneira de se postar perante os outros indivíduos indique o que elas realmente são e como pensam. Penso em mulheres livres.

Aquelas que conseguirem avançar mais na direção do autoconhecimento serão as que poderão alterar o modo como lidam com sua sexualidade. Não posso deixar de registrar a importância que atribuo ao fim da instrumentalização do poder sensual feminino para que as mulheres possam se encontrar consigo mesmas e o quanto acredito que isso seja necessário para a melhora das relações entre os sexos, para o surgimento de relações de efetiva amizade entre homens e mulheres e para o avanço global da humanidade. Não consigo vislumbrar nenhum caminho evolutivo que não passe pelo fim da guerra entre os sexos, que não passe pela redução da ambição masculina de se destacar socialmente a qualquer custo para impressionar as mulheres e que não passe pela redução do exibicionismo erótico feminino que objetiva apenas provocar o desejo masculino. Não acredito que a situação que estamos vivendo esteja fazendo alguém feliz, nem os homens e nem as mulheres, posto que essa guerra, além de acirrar ódios, aumenta a dependência recíproca em todos os sentidos.

Um bom indício de independência seria dado por uma postura que nos leve a tratar tanto o feminino como o masculino com autonomia e sem comparações inúteis. Quanto à sexualidade, isso é fundamental até mesmo porque as diferenças biológicas são marcantes e muito importantes. Não tem sentido que as mulheres comecem a se preocupar, de modo exagerado, com sua performance sexual apenas porque é essa a tendência masculina. Na realidade, o interessante seria conseguirmos limitar tal preocupação em todos, uma vez que o sexo terá que ser entendido em sua essência: uma simples e agradável troca de carícias capaz de desencadear um tipo peculiar de desequilíbrio homeostático, qual seja, a excitação. A preocupação com o desempenho cresceu nos homens em virtude de vários fatores, principalmente relacionados com a noção de que a competência sexual seria um dos importantes ingredientes da honra masculina. Nada disso é parte integrante do feminino, de modo que não cabe mais esse peso sobre as costas das mulheres justamente quando é tempo de tirá-lo das dos homens.

Não cabe igualmente a preocupação obsessiva com o orgasmo feminino, que nasceu no interior da mente masculina sempre preocupada em se mostrar competente nessa área. Saber conduzir a mulher ao orgasmo passou a ser mais um elemento da eficiência sexual masculina, de sorte que passaram a se preocupar com o prazer feminino apenas por causa da sua vaidade. É possível que tal preocupação tenha tirado a espontaneidade e a naturalidade de muitas mulheres, para quem o orgasmo chegava ou não de modo natural. Em virtude da inexistência de período refratário, acredito que a preocupação com o orgasmo era menor nas mulheres do que os homens imaginavam; isso porque não vem acompanhado da sensação de saciedade que os homens sentem quando ejaculam e que imaginam acontecer igual com as mulheres. Assim, é possível que elas jamais tenham se sentido incompetentes, frias ou inadequadas por terem orgasmo em algumas relações e não em outras. À medida que isso foi se tornando inadmissível para os homens, passou a ser tema de preocupação também para elas. Começaram a se sentir incompetentes, doentes mesmo, por não terem orgasmo, especialmente durante a penetração vaginal. Sabemos que a inervação vaginal não é muito farta e que o órgão talvez tenha uma função reprodutora maior do que aquela relacionada com o prazer erótico. Ainda assim, por vários anos as mulheres, agora preocupadas com o orgasmo, se sentiram incompetentes por não atingi-lo com a facilidade esperada pelos homens - e depois por elas mesmas.

Mais recentemente, um relatório pouco relevante do ponto de vista científico - o da Sra. Hite – conseguiu alterar o panorama, uma vez que teve sucesso em dar dignidade ao orgasmo atingido através da estimulação do clitóris, que sempre foi o foco dos estímulos tácteis das mulheres que se masturbam. O número das que se queixam sobre a frigidez diminuiu sensivelmente, posto que os homens aceitaram o orgasmo clitoridiano como suficiente para a sua vaidade, apesar de eles sempre preferirem o que se atinge na penetração vaginal. Insisto na urgência de alterarmos tais procedimentos e que o orgasmo volte a ser problema feminino e não um requisito da vaidade masculina. O orgasmo é propriedade da mulher e não objeto de deleite do homem. É sempre bom lembrar que elas dispõem de meios para fingir e atuar de acordo com o que não estão sentindo; assim, homens inteligentes não deveriam se atrever a pensar que sempre serão capazes de distinguir entre o que é um verdadeiro e um falso orgasmo; o melhor mesmo é deixarem de se preocupar tanto com o assunto.

Muitas das dificuldades sexuais femininas estiveram relacionadas com os desdobramentos da confusão descrita acima. Muitas mulheres se achavam frígidas porque não tinham orgasmo na penetração vaginal e passaram a se desinteressar do sexo por se reconhecerem pouco competentes para o tema. Outras fingiam com seus parceiros e se masturbavam estimulando o clitóris; outras, ainda, usaram a dificuldade que sentiam para rejeitar e humilhar com mais firmeza seus parceiros grosseiros. Preferiram, assim, se dedicar mais aos prazeres exibicionistas capazes de lhes despertar tão intensamente a excitação erótica típica da vaidade, além do prazer de sentirem os homens em suas mãos. Perceberam que isso lhes agradava mais do que as trocas de carícias, de modo que se transformaram em criaturas muito atraentes, mas que não estão disponíveis à aproximação masculina; são as que mais dramaticamente instrumentalizaram o poder sensual, de modo a obter vantagens de todo o tipo em virtude de conseguirem ativar o sonho de muitos homens de que, um dia, irão poder se aproximar delas.

Ninguém está ganhando essa guerra. Caem mortos combatentes de ambos os lados. Os homens, agredidos por provocações eróticas femininas, se tornam grosseiros e violentos, o que atiça ainda mais as mulheres contra eles - e que é, sem dúvida, uma importante causa de bloqueio erótico feminino, o qual aumenta ainda mais a tendência exibicionista. Ninguém se entende, ninguém vai atrás dos seus próprios ideais. Todos estão mais voltados para o sexo oposto do que para si mesmo. Não será em um contexto desse tipo que poderemos nos deparar com o que é verdadeiramente o feminino. É preciso desativar a guerra entre os sexos para que os homens e as mulheres possam olhar para dentro de suas almas e perguntar: "Quem sou eu"? "O que quero para mim"? "Quais são os meus verdadeiros anseios e minhas efetivas necessidades"? "Como posso me posicionar para me aproximar do ideal de felicidade que eu mesmo criei para mim"?

Essas e tantas outras questões só poderão começar a serem respondidas de modo consistente e de uma forma individual, respeitadora das peculidaridades de cada criatura, quando formos capazes de desatar os nós e de desfazer as confusões e tumultos que hoje unem - se é que se pode usar essa palavra - os homens e as mulheres. O caminho é longo e os obstáculos não devem ser subestimados, como tantas vezes costumamos fazer quando criamos proposições simplistas e demagógicas. Mas já não é sem um bom atraso que estamos iniciando esse percurso; e ele começa pela tentativa de conhecer melhor o emaranhado que tanto tem nos prejudicado.

Flávio Gikovate: Médico Psicoterapeuta, Conferencista e Colaborador de várias revistas e jornais de grande circulação.
Site: http://www.flaviogikovate.com.br



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