quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Tudo Está Fluindo - Monja Coen

Eu não a chamava de tia, embora ela fosse irmã de meu pai. Para mim, era Lina. Aposentada, católica, fazia palavras cruzadas. Tinha sempre um dicionário. Não só pelas palavras cruzadas, mas pela curiosidade. Tinha olhos claros, pele branca e cabelo liso, mais branco do que o branco anunciado no sabão em pó. Sempre me recebia sorrindo, e nos olhava. Olhava-nos e nos via. Sem intrusão. Queria saber como estávamos, passava a mão na minha cabeça. Havia ternura. Procurava traços de família.
Conversávamos na sala do seu apartamento. Foi nessa mesma sala, onde uma vez comi com prazer figado com cebola e eu detestava bife de figado, que ela morreu. Não acordou. Ou talvez tenha acordado. Seria a morte um despertar?

O que é a vida?
"A morte é um período em si mesma, e a vida um período em si mesma." O velho mestre zen, Eihei Dogen (lê-se Dooguen), falava assim a seus alunos há cerca de 800 anos. Antes de o Brasil ter sido invadido, de os nativos serem explorados. Antes de os negros virem em barcos. Uns 300 anos antes, no Japão, Dogen ensinava os outros monges, os leigos, aristocratas e plebeus a meditar. Sentar sem dizer, antes de pensar.
Quando perguntavam a ele como não pensar, ele respondia: "Sem pensar". Tão simples. Seria a morte o "não pensar"? Será a morte um pensamento? Ondas e partículas, diz a física quântica. Coisa difícil e fácil ao mesmo tempo.

Tudo está fluindo
Imagine dizer ao ser humano que tudo está fluindo: paredes, chão, montanhas, estrelas, pensamentos, emoções, cimento e corrimões, acredita? Pois que flui, flui. Fluindo se foi a vida de tia Lina.
Lina, que foi criança (teria nascido na santa Terrinha?), que brincou e cuidou dos irmãos mais novos. Lina, que se casou e foi feliz como podem ser felizes aqueles que se amam e se respeitam.
Ele morreu primeiro. Dois meses depois, foi o filho mais novo. Que tristeza profunda e silenciosa. A dor da perda que não se reverte em ganho jamais. Quem sabia sorrir também sabia chorar.
Uma vida, duas vidas, todas contidas em um suspiro. Suspiro que expira e se deixa levar no fluir de tudo o que flui.
No cemitério, o frio, as raízes das árvores que levantam o calçamento. Orando, nós a acompanhamos. Não retoma à terra o pó, mas ao concreto, ao cimento, ao tijolo que fecha o caixão, onde o corpo de mais de 90 anos é deixado.
Tia Lina não era apenas corpo. Era vida, amor e sentimento. Isso não morre.
Nessas reflexões, e vendo seus filhos fortes e corretos, fico pensando na educação, na fibra de formar sabedoria.
Pessoas capazes de não sucumbir às tentações. Essa capacidade de educar e ensinar a aprender, de descobrir o novo em si e em todos, eu queria saber usar.
Que a gente se inspire nessas pessoas boas. Que elas nos façam viver melhor, nos façam acreditar que "nem tudo está perdido quando resta uma esperança".
Há gente boa no mundo. Mesmo que os jornais anunciem tantos ladrões, eles ainda são poucos. A maioria é correta e não dá manchete. Não vamos cair na bobagem de pensar que nada presta. Chega de reclamar. Se há espaço reservado ao fracasso, há outro aberto ao sucesso. Abra o coração. Ajude os outros. Confie, pois é amando que se é amado.

Monja Coen



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails